segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Imperecível
Sobre o jardim dos acontecimentos
Abrindo seu manto frio de silêncio
A foice do nunca decepa o jardim interior
Evola-se no coração o poder do Amor
Crava-se a tua graça como espinho gutural
Chamo a magia de ser puro e depurador
E a água corre do uma à torrente
Poder transformador que alivia o espinho
Aro o meu peito com a charrua da saudade
E o silêncio Outonal da magia por acontecer
Sussurra-me o caminho à tua rosa por perecer
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
domingo, 5 de agosto de 2012
Bom dia para ti também
Saltam águas alegres
em olhares ridentes
de bocas peixe
Dizê-lo é fazê-lo
na seda da língua matinal
que me molha a boca
e me incendeia a pele
Adónis de mil sentires
Que rosas o meu ventre
Virgem ainda do teu caminho
De fazer noites no meu dia
Abrigo o teu ventre
Invoco o encontro
O teu abraço espelha-se
E fazes-me luar a manhã
No também do teu dia.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Relvas Relvinhas
sábado, 23 de junho de 2012
S. João
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Pessoa
Parabéns Pessoa!
Parabéns a mim
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Construir a Realidade
quinta-feira, 12 de abril de 2012
quinta-feira, 29 de março de 2012
Musicalidades
desde o grito ao silêncio
Mulher tem de crescente
feitiço que condense
o delicado e o voraz.
Mulher é Força,
é vontade,
é participar e acolher
a Liberdade
É arriscar gerar,
parir na dor o sorriso de amar
e fazer sua outra sina.
É investir no brilho do olhar,
é desenhar no breu constelações
a que aconchegue a esperança.
É dissolver-se e ser Luar
sob os grilhões.
É um afazer de flor
com o destino de cumprir-se
lacunando o seu fragor.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Todos os dias são de poesia mas hoje definitivamente é
Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.
Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"
terça-feira, 20 de março de 2012
Sagração da Primavera
Assim como a relva
Não planeia crescer na primavera
Assim Arvoro
De estação em estação
Sem plano
Tutorada pelo sabor do vento
Aqueço e subo…
Arrefeço e desço…
Redemoinho
E abro copa
Não possuo forma
Não marco dia à floração
Ou à semente
Não prendo o tempo
Nem ao tempo me prendo
Arramo liberdade
Sou densa
Não se faz em mim
Cerceio de noviço
Rejeito toda a tonsura
(Clareira de mato
Que se faz de censura)
Faço-me em dual tropismo
Um dia Luz
Outro Obscuridade
Intuo-me pelo natural
E quando, a primavera
Que é minha, a mim
Chegar
Saberei florar,
Frutificar
E semente lançar
Assim esteja surribada a terra
Que encontrar.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Ganhar 30 minutos
Para nos lembrar que já fomos jovens: - generosos; - solidários; - inconformados
Numa palavra CIDADÃOS
quinta-feira, 8 de março de 2012
Fazer Mulher
pés de barro
Degrau dois
tornozelo
Depois?
depois série
coxa - anca
baixo ventre
plexo
acima
amplexo
agitação
Passo
seio túmido
sobe
lábios de rosa
Passo
fios
tactos de seda
espiral
voz
sem - fim
mulher assoma
tesão de ouro
ao cetim
da Sua cama
quinta-feira, 1 de março de 2012
Caminhando a sul
Caminhava para sul montada nas minhas botas cardadas, apoiada num cajado e aquecida pela estepe lanífera. Às costas a mochila pesava de víveres que o coração limpo aligeirava.
A cortina de bruma dissipava-se abrindo ao olhar a cena. Montanhas de fogo, falos silenciosos e inóspitos, erguidos como último obstáculo ao horizonte. Espetáculo de luz e sombra para contemplação dos que amam. O céu muito azul esmaga a terra e o horizonte percecionado tão perto…
Trazer para a realidade o horizonte, um sonho tão humano e tão à mão do caminhar na paisagem do sul.
O sopé da montanha esfumava calor por uma velha chaminé. À porta uma mulher fiava. O manelo colorido, preso por couro ao roquil, transforma-se, às habilidosas mãos da velha fiandeira, num fino fio multicolor que o fuso freneticamente enrola.
- Bom dia
- Bom dia – respondeu-me a velha senhora elevando o olhar para o meu
- Sou Amélia, uma viajante no sul
Como só o silêncio me respondeu atirei
- Que fia?
- Depende. Agora fio Amélia.
- Fia-me a mim?
- Sim. Quando chegou disse: - Sou Amélia uma viajante a Sul – Um sonho que o manelo atraiu para ser fiado. Amélia significa para si um reportório de comportamentos físicos e morais, para a roca não significa nada. Ser viajante a sul é para si um reportório de sentimentos, para a roca os sentimentos de Amélia não são nada. Nem ser Amélia nem ser viajante a sul fazem parte da realidade da roca. Amélia viajante a sul é um sonho seu e um sonho sonhado sozinho não é mais do que isso; - um sonho – que o manelo atraiu e que eu agora fio na tentativa de juntar as suas cores ao fuso.
Amélia mordeu o sorriso
- Bem… Amélia foi o nome que me deram e em bom rigor eu não sabendo quem é Amélia me vou entendendo comigo nesta viagem pelo sul. De facto este meu entendimento releva à realidade como a entendo.
- Outro sonho – tornou a senhora – A pretensão de que o que lhe acontece agora acontece ao mundo é o sonho mais sonhado. O mundo acontece a todo o instante e estão portanto a acontecer uma infinidade de coisas. Não lhe sendo possível conhecer a plenitude do real não lhe resta outra alternativa senão construir uma realidade arbitrária. Supor que todos são Amélia e que Amélia é todos. Isto proporciona-lhe um tecido de conceitos e com ele olha a efetiva realidade, sem perceber que esse entretecido criado por si é ilusório. Compreende como lhe acontece e não como acontece.
- O que faz com o fio dos meus sonhos?
- Não faço fio dos seus sonhos. Um sonho sozinho nada faz.
- Por que fia então o manelo?
- No manelo não estão os seus sonhos.
- O que está no manelo?
- O sonho coletivo. Só o que o coletivo sonha se torna real. O fio é real e é uno, não é sonho fragmentado. Teço a realidade. Um fio forte e vital que diante de uma e outra coisa seja todos e ninguém em particular.
- Mas isso é sonho!
- Não é o Sol o sonho coletivo do fogo? Não é o mar o sonho coletivo da água? Não é o vento o sonho coletivo do ar. Não é a floresta o sonho coletivo das árvores? Não é a inflorescência em capítulo o sonho coletivo das flores? Não é isto real?
- Sim é. Mas o fio humano forte e vital que diante de uma e outra coisa seja todos e ninguém em particular é sonho. Veja como o mundo se faz; - do particular, não do todo! A promoção do particular para a ribalta do ter para poder fazer. O mundo faz-se da divisão e não da soma. Quem divide tem poder e divide como quer.
- O mundo faz-se do todo, não do particular Amélia. O que se tem construído do particular é o Homem e o Homem já não está com o mundo. O Homem foi-se afastando do mundo, construindo a sua realidade particular, foi desaprendendo o coletivo e quanto mais se afastou do coletivo mais se embrenhou na escravidão do eu. Fez-se escravo de sonhos fragmentados que globalizou e um sonho por mais global que seja não é um sonho coletivo. Não fio esse sonho.
Tal como as aves migram indiferentes às fronteiras politicas impostas pelo Homem, o sonho coletivo do Homem é o da liberdade. Sem igualdade o sonho da liberdade é um sonho sozinho e infiável como forte e vital que diante de uma e outra coisa seja de todos e de ninguém em particular. Tal como a alcateia se junta para promover a sobrevivência o sonho coletivo do homem é o da proteção. Sem igualdade o sonho da proteção é infiável como forte e vital que diante de uma e outra coisa seja de todos e de ninguém em particular. Então a igualdade é o sonho fiável como forte e vital que diante de uma e outra coisa seja todos e ninguém em particular Porque é um sonho coletivo é real.
- Fiandeira, como é que a igualdade é real? A humanidade nunca esteve tão fraturada nas suas diferenças de acesso à riqueza, ao conforto, à segurança, à cultura, à informação. Nunca tanto foi de tão poucos. Nunca tantos tiveram tão pouco. A sociedade global está a matar o remédio social; - a equidade. Sem equidade o caminho para a igualdade é impraticável. Um poço sem fundo onde todos cairemos.
- Por acaso a montanha cessa de existir porque a não vês? O que vês no horizonte Amélia?
- A montanha recortada no céu azul
- Se subires à montanha o que verás?
- A descida para o gelo Antártico sob o céu azul
- E a montanha?
- Desapareceu do horizonte
- Deixou de existir?
- Não. Está dentro de mim
- Quem és tu?
- Uma mulher com uma montanha dentro
- O que é a montanha que trazes dentro?
- A minha humanidade
- Que vais fazer com a montanha que trazes dentro?
- A Igualdade
- Porquê?
- Porque é o horizonte, o sonho coletivo, e por isso real ainda que a não veja.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Angústia
Podia acreditar que uma ave vai voar sobre a minha janela
e levar-me no seu voo
Nem precisava de acreditar em algo tão extraordinário
Podia ser um crer de coisa banal
Como acreditar que a vizinha vai bater à minha porta
E dizer-me que se lembrou, de tanto me não ver, de
me interromper subitamente a solidão descrente
Não!
Isto seria extraordinário!
O desvelo da vizinha, por muito, não poderia chegar a tanto.
Um crer mais comum...
Assim como crer que me velam a existência
E que a solidão não é mais que o erro de percepção
Se eu pudesse crer este pouco
Talvez me deslocasse deste lugar de ser lúcida para o lugar de ser louca
No manicómio há quartos com portas e janelas com barras
Onde se sabe não há aves
Nem vizinhos
Nem nada que nos vele
Apenas solidão que corre por entre os bocados de lucidez descrente
Hoje eu queria crer que sou louca
E que posso atirar fora a lucidez deste meu cristal
Como tinta de um quadro de emoções rubras
Pintadas a pincel de angústia
Esta velha angústia transbordante
Que me seca as lágrimas
(Não ficar nem partir
Não chorar nem rir
Não desacreditar nem crer)
Amargando-me o sentir
Hoje eu queria crer que a lucidez é o voo da ave
E que abriram o manicómio à realidade:
- Nas ruas, nas bolsas; nos passos apressados para o sucesso surdo
A qualquer sensibilidade; nos bolsos dos sem-abrigo;
Nas mães sem pão nas mãos; vaga a loucura,
Tão desumana, tão escrava de afazeres injustos
de um tempo sem tempo para sonhar;
- o voo
Esse despropósito pousado sobre a minha janela
Creio agora! Creio!
Realidade perene de verdade
Amarfanhada à mão da humanidade
Rezo-lhe!
e ao rezar-lhe chamo-lhe:
- Liberdade!
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A Chave?
Poema visual de ParadoXos

O diálogo ocasional com o vizinho de lugar no 17 escorria-me das camadas de mortos com que visto as conversas ocasionais de autocarro.
O autocarro é um falso lugar para comunicar, expressar nele um pensamento é acabar com a sua verdade.
Em verdade não sei quantos mortos trago vestidos. Tenho chaves que abrem os seus caixões para que delatem pensamentos dos quais não é possível discordar. A poeira dos mortos cobre o vizinho que, quieto, educado, sensível, como um espectador da minha insensibilidade, me sorri o silencioso acordo à morbidez dos dias.
Liberto-me dos dias e penso; -faca - mas fecho as palavras dentro da boca; - a viagem é demasiado curta para o homicídio.