segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Imperecível

Caiu a Outonal folha
Sobre o jardim dos acontecimentos
Abrindo seu manto frio de silêncio

A foice do nunca decepa o jardim interior
Evola-se no coração o poder do Amor
Crava-se a tua graça como espinho gutural

Chamo a magia de ser puro e depurador
E a água corre do uma à torrente
Poder transformador que alivia o espinho

Aro o meu peito com a charrua da saudade
E o silêncio Outonal da magia por acontecer
Sussurra-me o caminho à tua rosa por perecer

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Falla

Hoje estor Falla



Tudo se tansforma

Bom equinócio amanhã às 14:49

domingo, 5 de agosto de 2012

Bom dia para ti também

Bom dia!


Saltam águas alegres

em olhares ridentes

de bocas peixe



Dizê-lo é fazê-lo

na seda da língua matinal

que me molha a boca

e me incendeia a pele



Adónis de mil sentires

Que rosas o meu ventre

Virgem ainda do teu caminho

De fazer noites no meu dia



Abrigo o teu ventre

Invoco o encontro

O teu abraço espelha-se

E fazes-me luar a manhã

No também do teu dia.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Relvas Relvinhas

Enquanto cidadã não me chateia que um Ministro não seja licenciado (não se é licenciado fazendo 2 de 36 cadeiras) o que me chateia é que um Ministro não conheça a realidade. Chateia-me muito mais que um governo inteiro não conheça a realidade porque quem não conhece a realidade não pode produzir soluções para o que desconhece.

Enquanto cidadã chateia-me a hipocrisia de uma sociedade que produziu, pelo apoio nas urnas, políticos sem honra, sem ética, sem sentido do dever.

Não é Relvas que está na berlinda, é a nossa permissividade ao chico esperto.

Não temos só um ministro chico esperto. Temos um governo inteiro de chicos espertos que alimentamos e a quem damos acordo subserviente.

Sabem que mais? Que se lixe o Relvas, os jornais, o governo. Vou é comer uma bolonhesa para a mesa posta de realidade dura que está à minha espera.

sábado, 23 de junho de 2012

S. João




Baptista está a chegar
E o meu corpo é um grão
Moo o Trigo e faço pão
Para a João o ofertar

Baptista está a chegar
Como prelúdio da Treva
Medos que a candeia leva
Para a paz não se apagar

Baptista está a chegar
Traz consigo o perdão
Entregamos-nos à reinação
Até a amanhã começar

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Pessoa

e porque era o seu Santo aqui fica
Parabéns Pessoa!

Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!
Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Catholico, apostólico e romano.
(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)
Adeante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,

És o santo do povo.
Tens uma aureola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.
Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e anciosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vae tomar isso à lettra?
Que de hoje em deante quem o diz se digne
Dexar de dizer isso ou qualquer outra cousa.
Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.
Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.
Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instincto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro titulo de gloria,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido taes quando aqui andámos,
Bons, justos, naturaes em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que ha na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.
(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm belleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a mangerico.
És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nullidade, a que se chama historia,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retraio, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.
És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vae alta a lua
Num plácido e legitimo recorte,
Atira risos naturaes à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.
Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António—
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?
 
(in Fernando Pessoa, Os Santos Populares)

Parabéns a mim

A vida continua a ser para mim uma festa diária cheia de surpresas e encantos. Acordo e o olhar do dia sobre mim ainda tem o poder de me emocionar. Apesar de conhecer bem as pessoas ainda me deixo surpreender por elas. Não há nada melhor do que deixarmos-nos surpreender pelas cores das pessoas. Hoje completo 48 ciclos sob o sol e estou feliz por ainda ser capaz de sonhar ;)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Construir a Realidade

Acorda a manhã e com ela a incerteza lança os seus primeiros raios. Os dedos róseos da aurora estendem-se por entre o negro noturno apagando o céu e lançando luz sobre a realidade de um dia novo;- metade construída e metade por realizar. 

Olho as janelas de luz já acesas; - partilho com a mulher que assoma à janela, mal desponta o dia para estender a roupa, o sentimento que em mim encerro; - a incerteza. De que realidades se fazem os dias desta mulher debruçada sobre a janela do seu lar? Uma família; pai, mãe e filho funcionais em seus papeis sociais? Uma família monoparental desempenhando papel de pai e mãe? Terá um avô ou uma avó a cargo, tendo de encontrar dentro de si a resiliência para lhes dar o carinho e o conforto de que necessitam, pondo de lado as preocupações que a roem por dentro? Estará na sua realidade a preocupação constante de ter comida na despensa e as despesas saldadas no fim do mês, ou pelo contrário vive folgada de bens materiais? Que estatísticas avassaladoras engrossará a realidade que adentra a janela iluminada de onde se pendura a mulher que estende a roupa? – A do estigma do desemprego? A da indignidade da violência doméstica? Viverá silenciosamente a solidão da cidade dependendo exclusivamente da força que em si reúne para vencer cada dia ou, desvalida, percorre os passeios do intendente para pagar a renda? Poderá esta mulher ver a beleza que a aurora espalha sobre a cidade de Lisboa? Saberá rir? O que lhe abrirá um sorriso franco? Saberá disfrutar do perfume florido em maio de uma rosa num jardim camarário de Lisboa ou ter-se-á esquecido de sentir na azáfama citadina? Terá consciência de si? Qualquer que seja a realidade da mulher debruçada à janela do seu lar tem em comum comigo a incerteza da janela aberta ao futuro de Ser Mulher. A mais ninguém cabe senão às muitas que somos apenas nós as duas construir essa realidade mas saberemos nós, as muitas que somos apenas nós as duas, que realidade de Ser Mulher queremos e podemos construir? A realidade de ser ela e a realidade de ser eu difere tão completamente que parece impossível a construção da realidade comum na qual ser ela e ser eu seja igualmente realizável. 

A tarefa humana mais sublime é o de realizar eticamente o seu rosto. Para se ser humano, não basta a realidade biológica, é necessário ser-se reconhecido como tal. È na relação com o mundo, e necessariamente com o outro, que este reconhecimento se faz. A dignidade é o efeito deste reconhecimento e a sua fundamentação mas como dizia Saramago é mais fácil ao ser humano chegar a Marte de que chegar ao seu semelhante e tem sido mais fácil reconhecer às mulheres o direito à dignidade do que construí-la. 

Cansada da escravidão do seu corpo a mulher fez ouvir, durante todo o século XX, a sua voz pela voz que a sociedade reconhece; - a masculina. Violentou-se na sua maneira de ser e adotou o modo masculino de fazer. Praticou provavelmente o maior crime contra si mesma e contra a sociedade ao fazê-lo mas, foi essa a única forma que encontrou de ver legislados e punidos crimes como: - estupro; - violação; - lenocínio; - lenocínio marital; - pedofilia… Ao fazer pela forma masculina conseguiu renovar as consciências no que refere ao pudor na busca da intimidade, trazendo para o espaço público em primeiro lugar os direitos do corpo feminino, criando bases mais iguais a essa busca absolutamente essencial a Ser; - A busca da intimidade. Foi essa a única forma que encontrou para aceder a um direito que confere por si mesmo dignidade; - Trabalho. Temos muito a agradecer às nossas antecessoras feministas que pela forma masculina construíram a realidade em que nascemos e em que nos desenvolvemos. Sem elas o pouco poder que o masculino partilhou com o feminino, sobretudo o direito ao trabalho, ter-nos-iam sido negados e estaríamos ainda no triângulo - Solidão; - Silêncio – e ignorância que marcou a vivência da mulher até finais do século XIX mas de facto o terno e o tramelo de Marlene Dietrich não parecem servir-me por estes dias. Sempre que o vesti durante o século XX senti-me eu mas por estes dias parece afastar-me dela. Por estes dias o fato aceite como eficiente tem-me conduzido apenas à exaustão e o esgotamento não me vem da falta de força mas da frustração. 

Desde o início dos anos 90 até hoje a realidade foi-se tornando cada vez mais complexa. Realidades longínquas chegam-me de forma tão eficiente que eu tenho que as integrar rapidamente na minha realidade quantas vezes paradoxal. Ao mesmo tempo que os meus recursos para mapear a realidade foram escasseando a sociedade foi-se tornando cada vez mais intolerante ao erro. Enquanto mulher para ser reconhecida como Ser cultural estou obrigada a ser eficaz e eficiente enquanto trabalhadora, fémea, transmissora, formadora, cuidadora. 

A adoção do modelo masculino de fazer trouxe consigo a normalização de ser eficiente e eficaz masculino à totalidade de ser mulher e esta normalização é desumana e fere a dignidade feminina. É impossível a uma mulher, nos modelos atuais de carreira no mundo do trabalho e com os apoios sociais existentes, construir-se nas múltiplas facetas de ser mulher. A mulher vê-se diariamente confrontada com a escolha da defesa do seu posto de trabalho em detrimento do seu papel procriador, formador e cuidador. Uma carreira, quer de homem quer de uma mulher, constrói-se em períodos de 10 anos: - entre os 25 e os 35 anos constroem o seu lugar nas empresas; - dos35 aos 45 anos atingem o pleno do seu desenvolvimento intelectual e produtivo; - dos 45 aos 55 anos fazem as organizações aprender; - dos 55 aos 65 anos iniciam a sua luta com os recursos humanos para não serem substituídos por jovens com melhores capacidades físicas e no ascendente das capacidades intelectuais. Esta é a dura realidade do mundo do trabalho para homens e para mulheres mas no caso feminino acresce que a partir dos 35 anos a maternidade pode estar comprometida e mesmo tendo a ciência minorado os riscos de ser mãe aos 40 anos a verdade é que entre os 30 e os 35 anos o relógio biológico diz-nos, alto e bom som, que estamos atrasadas. 

Não conseguimos ainda uma estrutura social que substitua a família. A escola foi a grande aposta mas mostrou não ser capaz de educar pelo amor como o faz de forma tão eficiente a família. Os lares de idosos foram outra aposta para resolver a questão de ascendentes a cargo mas mostraram ser pobres em afeto. Mais do que conseguir produzir uma estrutura social que substitua a família pergunto: - queremos essa estrutura? Queremos uma sociedade em que a procriação independa da filiação? Queremos procriar sem cuidar, sem educar, sem transmitir? A primeira vez que me detive sobre este pensamento foi na legislação do casamento homossexual em Portugal e por que é um raciocínio absolutamente linear quero partilhar. 

Até à legalização do casamento homossexual a filiação dissociada da reprodução, trazida ao espaço público para discussão ética, teve na sua génese o colmatar da incompetência biológica, salvo raras exceções de generosidade que confirmam a regra, de casais do modelo dos “dois sexos” de família, em que os modelos de pai e de mãe ficaram intocados. O casamento homossexual arrasta consigo a homoparentalidade. É inevitável. O casamento é mais do que um contrato, é um projeto de vida em que a filiação tem papel principal e a homoparentalidade dissocia completamente reprodução da filiação. Dissociar a imagem da mulher do conceito de mãe e a imagem do homem do conceito de pai, típicos do “modelo” de ‘dois sexos’ da parentalidade, das atividades sociais e dos sentimentos acrescenta socialmente? Sem dúvida a mulher pode liberta-se do papel cuidador e o homem pode libertar-se do papel provedor e cada um pode desenvolver livremente o papel que melhor o faz acrescentar, enquanto síntese própria, socialmente mas teremos estrutura mental e social que suporte a dissociação em definitivo da reprodução da filiação? 

Quando nos reproduzimos estamos antes de mais a responder a uma necessidade básica; - manter a espécie. Este desígnio coletivo foi remetido pela natureza à esfera privada e há uma realidade de que não nos podemos alhear; - uma mulher está biologicamente preparada para parir (ser mãe) e um homem biologicamente preparado para fertilizar (ser pai). Esta realidade não é social é biológica e imutável na forma natural. 

Sempre seremos uma sociedade construída por homens e mulheres; - é imutável. Pergunto: - É possível uma cultura onde a diferença de género esteja ausente? Acho que não. Um homem não pode ser entendido como uma mulher nem uma mulher pode ser entendida como um homem e não podendo ser entendidos de maneira igual não podem ser tratados igualmente mas a dignidade de um homem é entendida como a dignidade de uma mulher e a dignidade de uma mulher é entendida como a dignidade de um homem e sendo a dignidade de um homem e de uma mulher entendidos como iguais então são iguais. A construção da realidade de Ser mulher difere da construção da realidade de Ser homem mas a construção da realidade da Ser digno não pode diferir. 

Este é o desafio que nos coloca o século XXI. Fazer evoluir as mentalidades, a das mulheres incluída, no sentido de a sociedade respeitar a dignidade da mulher defendendo o seu direito à inclusão no fator que por si mesmo confere dignidade; - Trabalho – mas respeitando seu ritmo biológico e integrando o homem na sua missão de formadora e cuidadora. 

A sociedade mutifocal construiu muitos rostos éticos e a abordagem às questões da dignidade tem-se feito apenas pela negação da banalidade. O confronto com a indignidade e a falta de respeito dá-nos indícios dos comportamentos que exigem respeito mas a dignidade atual da mulher exige mais do que o confronto com comportamentos banais, exige a construção de novos comportamentos e atitudes quer ao nível privado quer legislativo ou social. Deverá sobretudo ser feita a discussão ao nível laboral. O mundo do trabalho e a família têm momentos incompatíveis e as organizações precisam de deixar de considerar um estigma lacunas curriculares. A manutenção da família pode precisar de uma pausa laboral da mãe ou do pai, do filho ou da filha com ascendente a cargo mas para que tal seja possível o mundo do trabalho tem que evoluir no sentido de aliviar o estigma sobre essa escolha individual. quando tal acontecer as famílias saberão dosear o recuo feminino e o recuo masculino no sentido de viabilizar a família e ambas as carreiras.

Acreditamos, a uma que sou eu e ela, que os dedos róseos da aurora se estejam a estender por entre o negro e lançarão luz sobre a realidade de um dia novo;- metade construída e metade por realizar.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Musicalidades

Ser é busca incessante
desde o grito ao silêncio
Mulher tem de crescente
feitiço que condense
o delicado e o voraz.

Mulher é Força,
é vontade,
é participar e acolher
a Liberdade
É arriscar gerar,
parir na dor o sorriso de amar
e fazer sua outra sina.

É investir no brilho do olhar,
é desenhar no breu constelações
a que aconchegue a esperança.
É dissolver-se e ser Luar
sob os grilhões.

É um afazer de flor
com o destino de cumprir-se
lacunando o seu fragor.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Todos os dias são de poesia mas hoje definitivamente é

Poema para Iludir a Vida

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.

Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

terça-feira, 20 de março de 2012

Sagração da Primavera



Assim como a relva
Não planeia crescer na primavera
Assim Arvoro
De estação em estação
Sem plano
Tutorada pelo sabor do vento
Aqueço e subo…
Arrefeço e desço…
Redemoinho
E abro copa

Não possuo forma
Não marco dia à floração
Ou à semente
Não prendo o tempo
Nem ao tempo me prendo
Arramo liberdade

Sou densa
Não se faz em mim
Cerceio de noviço
Rejeito toda a tonsura
(Clareira de mato
Que se faz de censura)

Faço-me em dual tropismo
Um dia Luz
Outro Obscuridade
Intuo-me pelo natural

E quando, a primavera
Que é minha, a mim
Chegar
Saberei florar,
Frutificar
E semente lançar
Assim esteja surribada a terra
Que encontrar.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ganhar 30 minutos



Para nos lembrar que já fomos jovens: - generosos; - solidários; - inconformados

Numa palavra CIDADÃOS

quinta-feira, 8 de março de 2012

Fazer Mulher

Degrau um
pés de barro
Degrau dois
tornozelo
Depois?
depois série
coxa - anca
baixo ventre
plexo
acima
amplexo
agitação
Passo
seio túmido
sobe
lábios de rosa
Passo
fios
tactos de seda
espiral
voz
sem - fim
mulher assoma
tesão de ouro
ao cetim
da Sua cama

quinta-feira, 1 de março de 2012

Caminhando a sul


Caminhava para sul montada nas minhas botas cardadas, apoiada num cajado e aquecida pela estepe lanífera. Às costas a mochila pesava de víveres que o coração limpo aligeirava.
A cortina de bruma dissipava-se abrindo ao olhar a cena. Montanhas de fogo, falos silenciosos e inóspitos, erguidos como último obstáculo ao horizonte. Espetáculo de luz e sombra para contemplação dos que amam. O céu muito azul esmaga a terra e o horizonte percecionado tão perto…
Trazer para a realidade o horizonte, um sonho tão humano e tão à mão do caminhar na paisagem do sul.
O sopé da montanha esfumava calor por uma velha chaminé. À porta uma mulher fiava. O manelo colorido, preso por couro ao roquil, transforma-se, às habilidosas mãos da velha fiandeira, num fino fio multicolor que o fuso freneticamente enrola.
- Bom dia
- Bom dia – respondeu-me a velha senhora elevando o olhar para o meu
- Sou Amélia, uma viajante no sul
Como só o silêncio me respondeu atirei
- Que fia?
- Depende. Agora fio Amélia.
- Fia-me a mim?
- Sim. Quando chegou disse: - Sou Amélia uma viajante a Sul – Um sonho que o manelo atraiu para ser fiado. Amélia significa para si um reportório de comportamentos físicos e morais, para a roca não significa nada. Ser viajante a sul é para si um reportório de sentimentos, para a roca os sentimentos de Amélia não são nada. Nem ser Amélia nem ser viajante a sul fazem parte da realidade da roca. Amélia viajante a sul é um sonho seu e um sonho sonhado sozinho não é mais do que isso; - um sonho – que o manelo atraiu e que eu agora fio na tentativa de juntar as suas cores ao fuso.
Amélia mordeu o sorriso
- Bem… Amélia foi o nome que me deram e em bom rigor eu não sabendo quem é Amélia me vou entendendo comigo nesta viagem pelo sul. De facto este meu entendimento releva à realidade como a entendo.
- Outro sonho – tornou a senhora – A pretensão de que o que lhe acontece agora acontece ao mundo é o sonho mais sonhado. O mundo acontece a todo o instante e estão portanto a acontecer uma infinidade de coisas. Não lhe sendo possível conhecer a plenitude do real não lhe resta outra alternativa senão construir uma realidade arbitrária. Supor que todos são Amélia e que Amélia é todos. Isto proporciona-lhe um tecido de conceitos e com ele olha a efetiva realidade, sem perceber que esse entretecido criado por si é ilusório. Compreende como lhe acontece e não como acontece.
- O que faz com o fio dos meus sonhos?
- Não faço fio dos seus sonhos. Um sonho sozinho nada faz.
- Por que fia então o manelo?
- No manelo não estão os seus sonhos.
- O que está no manelo?
- O sonho coletivo. Só o que o coletivo sonha se torna real. O fio é real e é uno, não é sonho fragmentado. Teço a realidade. Um fio forte e vital que diante de uma e outra coisa seja todos e ninguém em particular.
- Mas isso é sonho!
- Não é o Sol o sonho coletivo do fogo? Não é o mar o sonho coletivo da água? Não é o vento o sonho coletivo do ar. Não é a floresta o sonho coletivo das árvores? Não é a inflorescência em capítulo o sonho coletivo das flores? Não é isto real?
- Sim é. Mas o fio humano forte e vital que diante de uma e outra coisa seja todos e ninguém em particular é sonho. Veja como o mundo se faz; - do particular, não do todo! A promoção do particular para a ribalta do ter para poder fazer. O mundo faz-se da divisão e não da soma. Quem divide tem poder e divide como quer.
- O mundo faz-se do todo, não do particular Amélia. O que se tem construído do particular é o Homem e o Homem já não está com o mundo. O Homem foi-se afastando do mundo, construindo a sua realidade particular, foi desaprendendo o coletivo e quanto mais se afastou do coletivo mais se embrenhou na escravidão do eu. Fez-se escravo de sonhos fragmentados que globalizou e um sonho por mais global que seja não é um sonho coletivo. Não fio esse sonho.
Tal como as aves migram indiferentes às fronteiras politicas impostas pelo Homem, o sonho coletivo do Homem é o da liberdade. Sem igualdade o sonho da liberdade é um sonho sozinho e infiável como forte e vital que diante de uma e outra coisa seja de todos e de ninguém em particular. Tal como a alcateia se junta para promover a sobrevivência o sonho coletivo do homem é o da proteção. Sem igualdade o sonho da proteção é infiável como forte e vital que diante de uma e outra coisa seja de todos e de ninguém em particular. Então a igualdade é o sonho fiável como forte e vital que diante de uma e outra coisa seja todos e ninguém em particular Porque é um sonho coletivo é real.
- Fiandeira, como é que a igualdade é real? A humanidade nunca esteve tão fraturada nas suas diferenças de acesso à riqueza, ao conforto, à segurança, à cultura, à informação. Nunca tanto foi de tão poucos. Nunca tantos tiveram tão pouco. A sociedade global está a matar o remédio social; - a equidade. Sem equidade o caminho para a igualdade é impraticável. Um poço sem fundo onde todos cairemos.
- Por acaso a montanha cessa de existir porque a não vês? O que vês no horizonte Amélia?
- A montanha recortada no céu azul
- Se subires à montanha o que verás?
- A descida para o gelo Antártico sob o céu azul
- E a montanha?
- Desapareceu do horizonte
- Deixou de existir?
- Não. Está dentro de mim
- Quem és tu?
- Uma mulher com uma montanha dentro
- O que é a montanha que trazes dentro?
- A minha humanidade
- Que vais fazer com a montanha que trazes dentro?
- A Igualdade
- Porquê?
- Porque é o horizonte, o sonho coletivo, e por isso real ainda que a não veja.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Angústia

Hoje eu podia acreditar em alguma coisa
Podia acreditar que uma ave vai voar sobre a minha janela
e levar-me no seu voo

Nem precisava de acreditar em algo tão extraordinário
Podia ser um crer de coisa banal
Como acreditar que a vizinha vai bater à minha porta
E dizer-me que se lembrou, de tanto me não ver, de
me interromper subitamente a solidão descrente
Não!
Isto seria extraordinário!
O desvelo da vizinha, por muito, não poderia chegar a tanto.
Um crer mais comum...
Assim como crer que me velam a existência
E que a solidão não é mais que o erro de percepção
Se eu pudesse crer este pouco
Talvez me deslocasse deste lugar de ser lúcida para o lugar de ser louca

No manicómio há quartos com portas e janelas com barras
Onde se sabe não há aves
Nem vizinhos
Nem nada que nos vele
Apenas solidão que corre por entre os bocados de lucidez descrente

Hoje eu queria crer que sou louca
E que posso atirar fora a lucidez deste meu cristal
Como tinta de um quadro de emoções rubras
Pintadas a pincel de angústia
Esta velha angústia transbordante
Que me seca as lágrimas
(Não ficar nem partir
Não chorar nem rir
Não desacreditar nem crer)
Amargando-me o sentir

Hoje eu queria crer que a lucidez é o voo da ave
E que abriram o manicómio à realidade:
- Nas ruas, nas bolsas; nos passos apressados para o sucesso surdo
A qualquer sensibilidade; nos bolsos dos sem-abrigo;
Nas mães sem pão nas mãos; vaga a loucura,
Tão desumana, tão escrava de afazeres injustos
de um tempo sem tempo para sonhar;
- o voo

Esse despropósito pousado sobre a minha janela

Creio agora! Creio!
Realidade perene de verdade
Amarfanhada à mão da humanidade
Rezo-lhe!
e ao rezar-lhe chamo-lhe:
- Liberdade!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Chave?

Poema visual de ParadoXos





O diálogo ocasional com o vizinho de lugar no 17 escorria-me das camadas de mortos com que visto as conversas ocasionais de autocarro.

O autocarro é um falso lugar para comunicar, expressar nele um pensamento é acabar com a sua verdade.

Em verdade não sei quantos mortos trago vestidos. Tenho chaves que abrem os seus caixões para que delatem pensamentos dos quais não é possível discordar. A poeira dos mortos cobre o vizinho que, quieto, educado, sensível, como um espectador da minha insensibilidade, me sorri o silencioso acordo à morbidez dos dias.

Liberto-me dos dias e penso; -faca - mas fecho as palavras dentro da boca; - a viagem é demasiado curta para o homicídio.