quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Solstício de Inverno



Noite de silêncio, Noite de Solstício

Tudo é calmo, Tudo é deslumbramento

Dorme a natureza, a floresta e o vale

Até que a primavera a volte a despertar

Espíritos em sossego crescem fortes

Espíritos em sossego crescem fortes


Noite de silêncio, Noite de Solstício

Lua de prata deslumbrante

Repousa a Terra em lençóis de neve

Os fogos de Yule honram a volta do Sol

Ouçam, a Luz Renasce!

Ouçam, a Luz renasce!


Noite silenciosa, Noite de Solstício

A quietude lavra a Luz

Giro eterno de rolamento

Traz o inverno que conforta e cura

Descansa o teu espírito na paz

Descansa o teu espírito na paz


(Livre tradução)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Construir a Felicidade

'A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade'.
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Derrida






Qual a influência social de cada vez escrevermos mais e falarmos menos?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Fénix

Cada vez que a vida insiste em reinventar-me
Dou por mim chegada a um lugar incerto
Por construir e por decorar
O Esplendoroso vazio
Começa a erguer uma imagem
Sem nome
Imagem de coisa completamente nova
Interrogação perplexa sem evidência de pergunta

Inicio o despejo
O lastro do inabalável escorre-me da ampulheta
E perco todo o meu tempo de saber
Flutuo sobre o vazio, voo insustentada
Como se fosse espuma de uma onda desfeita
Que se ergueu acima das águas
Apenas para ser açoitada pelo vento
E é então que o Azul me pede mais

Trago, acorrentadas às mãos, apenas as minhas cores
Liberto-as e… rezo-lhes
Peço-lhes que bailem sem se fundir
Para que o milagre de uma pena colorida me aconteça
...Mas não acontece…
Tudo se funde e a escuridão da noite por estrelar
Devolve-me o lastro que me pesa o pé
Afundo-me na densa prisão de mim
Condenada ao frio e à escuridão do rancor

O desespero Incendeia a minha Fénix
Sobre o cinzeiro das penas
Facho de luz que amacia a escuridão
E me aquece o lastro
Olho o peso finalmente aberto e escolho apenas
O que me funda e me liberta
Aprendo o céu da contemplação
Forjo o esplendor e saio de mim
Respiro todas as cores da minha vida
E encho-me do arco-íris
Milagre da minha pena
Que agora brilha sobre toda a escuridão

Renasço do mesquinho mortal
Penduro todas as cores neste novo local
Regatos, alegres, volteiam o abraço sincero
A montanha inicia o seu canto
As aves voam sobre o som das águas
Brincam com a inocência do riso
Natureza inteira
Matiz que se intui de um sol
Sem paredes, nem janelas, nem cortinas
Sem hora para o levante
Nem hora para o esplendor
Sem hora para o vazio
Nem hora para a rosa
Sem hora para o silêncio
Nem hora para o ocaso
Eu sou a montanha, o regato, a ave, o riso
A rosa e o silêncio
Eu sou, sobre a prancha,
O papel, a tinta e a pena
Sou
E não tenho maneira de escapar

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ao Intendente

Aluga-se
Bem localizado
A um minuto, a pé, para a vida
Transporte público,
com todas as exéquias,
para a morte
Acesso rápido a eternidades ínfimas de amor.

Espaço amplo,
Largas janelas sobre o mar da imaginação
Cortinado, da mais fina liberdade,
sem bordados ou brocados,
Fixo, por ilusões, a bocados de interioridade
Forjados na luz da escuridão.
Equipado, para suporte da dor,
Com aquecimento a coração.

Possuo lugar vazio,
Sem qualquer propósito ou
intenção de utilização
com serventia de cozinha
(E por que não?) do saguão,
Aguardando ocupação

Se deseja (des)arrumar-se
numa vida para alugar
Contacte os sentimentos
Receba,
caro inquilino,
O melhor dos cumprimentos

sábado, 4 de junho de 2011

:) Violetas na tua janela

Olhei a tua janela sem flores...
Florou-me a sã loucura que me atravessa
Ao pensar-te o sorriso

inicias a passar-me pelos dedos
Como contas de um rosário
Com cheiro a encanto e a sonho

Não resisto a rezar-te...
Bailam nos meus lábios doces
Pensamentos que te rezam verdade

Ilumina-se-me o olhar da tarde
Abro-me ao vento que te traz
Ao esvoaçar dos meus cabelos

Sorvo deliciada o teu cheiro
Essa velha ponte de ti em mim
E dou-me á calma morena de ti

Talvez sejam só as cores da tarde
Ou a seda fina dos meus cabelos
mas tu sorris-me a bonomia

Deixo que a magia de ti em mim
Me redesenhe pétala de violeta,
Viço florido, no teu parapeito

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril


Enquanto há força
No braço que vinga
Que venham ventos
Virar-nos as quilhas
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também

Levanta o braço
Faz dele uma barra
Que venha a brisa
Lavar-nos a cara
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Círculo perfeito

A realidade cai sobre a minha tarde
Encosto-me a ela como ao colo de uma mãe
E o seu odor morno aconchega-me a ilusão de que
O espelho parou de me contemplar

Dispo-me lentamente da minha imagem fónica
Perco a aparência do meu traço sobre a superfície
Inalo a essência que me arde no coração
E o céu e a terra recolhem à minha morada

Morno toque, memória azul, esculpe-me
Realidade doce de um sonho de sal
A beleza incorruptível do real cose-me o pensamento
À desembocadura das águas sobre o areal

sábado, 2 de abril de 2011

Luar



Fotografia de Miguel Claro



Zeus e Leto com fervor se desejaram
Sobre as estrelas com ardor se amaram
O dia e a noite entreolharam-se
E um leito de alabastro lhes cuidaram

Artémis e Apolo se geraram.
A luminosidade própria dos amantes,
A luz das emoções deambulantes,
À humanidade testamentaram.

Auroras de dedos prateados
Erguem da terra o negro manto
Escondendo os astros alheados

E Sobre a terra lançam-se a voar
As cores do amor de Leto e Zeus
Em todas as noites ternas de luar

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O meu país

(A propósito da ideia mercenária de não comemorar o 25 de Abril na Assembleia da República)

O meu país está uma manta de retalhos
Cosido com falta de senso por Gente
Irresponsável que vaga o maldizer

O meu país está um sopro de maldade
Sem Homens e sem vontade
Deambula amordaçado o mês da Liberdade

O meu país está uma mãe maltratada
Pelos Homens que pariu
Já nem a história celebram na casa que os ungiu

Escárnio e maldizer tecem a nossa mortalha
Vem às nossas mãos Penélope
Ensina-nos a destecer.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ao luar



Ergueu-se o Sol
Da funda gruta
Caminhou as águas
E tombou
Sobre a Lua
Claridade dolente
Que a noite ofuscou

Sem labor, sem descanso
Escasso de luz,
Alumia
O que espelha a obscuridade
E acendeu-se a inveja
Só!
Sob a dor íntima
Da noite apagada

Fechou-se a janela
De sorriso sardento
Que o breu eleva
Pelo céu a voar
Nas horas nocturnas
Em que dorme o luar

segunda-feira, 21 de março de 2011

Imprecação ao Sol

Chora
A redonda palavra
De luz ofuscada
Chora
Sob o sol intenso
Que lhe abre os véus
Chora
A impudicícia brancura
Sob os céus apagados

Redonda palavra
Lança o encantamento
Da sombra
Que te faz quarto
Abre a bruma dos enigmas
Sobre as águas
Dobra a tua charpa
E amarra o despudor desses raios
Que te desfloram o mistério

Harpeia o breu
Redonda palavra
Veste-te da graça da tua treva
E acende os céus libertos de toda a culpa
Cicia-me o silêncio incognoscível
Que abre a porta indistinta da tua prata
E deixa que se acenda a noite em mim
Sob o pudor dos teus véus.



Para aceder à Galeria de Miguel Claro em Olhares

porque hoje é dia internacional da poesia

Poema em linha recta
Fernando Pessoa




Cântico Negro
josé Régio



No fundo do mar
Sophia de Mello Breyner



Há palavras que nos beijam
Alexandre O'Neill


Ser Poeta
Florbela Espanca

quarta-feira, 16 de março de 2011

Incertezas

É só um passo
Interiormente um abismo
Realidade e sentimento
Diferem
Na proporção do medo
Do desconforto
Do feito face ao sonho
Que colapsou
(E nem sei bem
Quando foi que a realidade
Atropelou o sonho
Ou talvez tenha sido o sonho
A trucidar a realidade)
De real só tenho um passo
De sentimento
A sustentação sobre o abismo
E não é sonho
A realidade o escreverá
A riso ou a lágrima
Na minha face
E vou dançando este meu medo
Agarrada ao futuro
Num passo de tango
Sobre o abismo
Ardente
Da esperança

segunda-feira, 14 de março de 2011

Bem hajas!

Tive sempre com o meu Pai uma relação difícil.
Eu sou um espírito livre
Ele tem espírito dominador
Vamos conjugando o que somos com exigente amor.

Teria eu talvez 16 ou 17 anos (tinha começado a namorar por isso andava nesta faixa de idade) e a família ousou um S. João nas ruas apinhadas do Porto. Encantei-me por um peluche amarelo (enormeeeeeee! pelo menos o maior que alguma vez tive) que se encontrava pousado numa das muitas bancas da cidade do Porto e pedi ao meu pai que o comprasse. A minha mãe profetizou logo o impróprio face à minha idade, ela sabia que breve passaria de menina a mulher, mas não o meu Pai. Compro-me o peluche com o carinho de quem diz; - serás sempre a minha menina.

Em 2005, mais ou menos por esta altura, o meu Pai sentiu-se mal e a minha mãe chamou-me, morava perto na altura. Rapidamente me apercebi que estava a ter um ataque cardíaco e lembrei-me de um email que dizia que tossir ajudava. Lembro-me de lhe ter dito imperativamente; - Tosse! E de entrar em pânico interior. Ele olhou para mim com o ar mais desprotegido que alguma vez lhe observei e tossiu. Eu, que tive formação em saúde, sabia da necessidade de chamar o 115 mas em vez disso meti-o no meu carro e conduzi-o pelo breu da nossa noite até ao hospital. Lembro-me sobretudo do desnorte da minha incredulidade. Não estava a acontecer, não era o meu Pai que estava a ter um ataque cardíaco. Isso era uma impossibilidade. Aquele era o meu Pai, não podia ser um ataque cardíaco, o meu Pai é eterno… mas era mesmo um ataque cardíaco e teve outro já no hospital. Perguntei à médica: - Tem as coisas controladas, não tem? Ela olhou para mim com os olhos abertos de espanto e respondeu-me: - Tanto quanto posso ter. O seu Pai vai ser transferido para o Hospital de S. João assim que estabilizar – e eu percebi que o tanto quanto ela podia controlar a situação era muito pouco controle.

Esta ameaça à Força do meu pai, esta sua capacidade de ser perecível, absolutamente nova para mim, deixou-me no nada. Perdi toda a minha sustentação e vaguei o vazio racional, deixei-me invadir pela comoção, expectante na reposição da normalidade que assentava na Força do meu Pai.

Quando ficou fora de perigo deixei a porta do S. João e fui visitar o peluche amarelo, sem um olho lamentavelmente, que deixei guardado na garagem dos meus pais dentro de um saco. Miúdas vezes, quando os visito, abro o saco e aconchego a minha meninice, plena do carinho do meu Pai, no fofo abraço do enormeeeeee peluche amarelo comprado numa noite de S. João.

Na próxima quarta-feira o meu Pai fará 73 anos e eu descubro, ao pensá-lo, que não necessito de ser tão livre assim e que acarinho a ideia de ser; - a sua eterna menina - assim como acarinhando-o eternamente em mim.

:)))))))

sexta-feira, 11 de março de 2011

:)

De nada já serve pensar-te
Tão grande a lonjura
Numa nesga de espaço.

Onda que não chega
Cabelos que não pendem
De estrelas pregadas
Em céu pintado de nós

Vento que não acaricia
E seca as cores de esborrachar desejos

De nada já serve pensar-te
Tão grande a lonjura
Numa nesga de espaço
Das tuas folhas
Ao meu azul

Ficaste-me bocadinhos de Lua
Migalhas de Luz

terça-feira, 8 de março de 2011

8 de Março de 2011

Hoje é dia Internacional da mulher. Uma efeméride que celebra a luta das mulheres pela igualdade. Dizem que a luta pela igualdade é anacrónica no entanto os números mostram que ainda o não é.

O Primeiro Ministro disse ontem, comentando um protesto de jovens a que chamou partida de carnaval, que a crise afecta primeiro os jovens. Esqueceu-se das mulheres; - “Na prática, 315,4 mil mulheres estavam desempregadas, o que corresponde a mais de metade do total de pessoas sem trabalho.” - Público

O silêncio do primeiro Ministro face À situação de desemprego das mulheres só é comparável ao silêncio impróprio de que sofrem as mulheres.

Em Novembro de 2010 foram publicados os seguintes números no que refere violência contra a mulher em Portugal; - “foram já assassinadas por violência doméstica e de género 39 mulheres, mais dez do que em 2009”

Calam-se quando desejam gritar

Imagino que o Sr. Primeiro Ministro também tivesse “todo o gosto” em ser "simpático" com as mulheres. Seria simpático dotar de orçamento serviços de análise de mulheres em risco. Seria simpático que a justiça funcionasse de forma célere quando uma mulher pede separação de corpos, na verdade ela devia poder pedir um habeas corpus já que se trata efectivamente de tomar posse do seu corpo. Pois ela sofre de ameaça à sua liberdade por parte de quem não tem sobre ela qualquer autoridade.


Não, a luta das mulheres pela igualdade não é infelizmente anacrónica. Os videos que se seguem expressam uma realidade supostamente particular mas não é tão particular assim







Não são tão particulares assim, são?

Há denominador comum; - Violência contra a mulher



Nem sempre foi assim e não tem que ser assim



Não, a luta pela igualdade não é anacrónica.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lux

Se o amor te encontrar
Deixa-te amar
Cheira, soa e sente
A indefinível força da fragilidade
Ama como se ama o caminho do pardal
E se não souberes ser livre
Finge
Não há amor sem eternidades
E eu amei-te
Como se ama o voo
E tu fosses próprio
A liberdade

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Filhos da Lua

Iniciara-se leve a manhã e Amélia caminhava o carreiro que a levaria à fraga bem no topo da montanha. O granito paria urzes e da lenha vinha o verde que pintava o branco. Rara era a água e a que havia gelara nas frestas. Da boca de Amélia saía vapor arquejante feito pela subida e pelo sorriso.
O sol mal tinha despontado quando Amélia se levantara… um camisolão, calças, botas e na mochila o farnel para o dia; água, pão e fruta, ah! O canivete do Matias, por certo lhe perdoaria, era só um empréstimo por um dia. O ponta e mola do Matias… o frio do metal provocara-lhe sempre arrepios e quando a mola soltava a lâmina, Amélia saltava... Repetiu o gesto e sorriu no salto. Correu para a fonte e lavou a cara na gélida água que escorria. Pôs-se a caminho, eram bem duas horas, se estugasse o passo eram duas horas… Duas horas e estaria na fraga.
A fraga era uma espécie de mito. A montanha era penedia mas a fraga encimava a montanha e exercia sobre a paisagem toda a sua magia. Amélia aprendera ali que a perninha extra do Y se aprende, não se nasce mulher! Nasce-se… depois diferencia-se. Ela sabia que a perninha extra de um Y trazia inclusa romã e degustar romã era paciente trabalho de separação de partes “asignáveis ”, aturado trabalho de libertação de dualidades culturalmente imposta por conceitos, na maior parte das vezes por preconceitos.
Amélia não podia imaginar a montanha, excisada da fraga. A montanha sem fraga perderia o poder de excitação do imaginário. Porque era disso que se tratava, do imaginário das rosas que o tempo quis excisar, física ou culturalmente; - É verdade: o género e a cultura excisaram o feminino



Ah Senhora da Lua!
Grande Espírito se revela
Usando o vazio de teu vaso
Poder de sangramento
Que não mata e vivifica
Acervo de segredos
Semente de trigo plantada
Espiga madura Senhora da vida
Estio de toda a abundância
Deusa de 10 lunações
Unificando círculo em seu ventre
Perpétuo renascimento
Esperança de Sabedoria
Guardando Sombras
Conduzindo almas…



Usou a sociedade Judaico/Cristã, como ponta e mola para excisar o feminino, o Rosarium: - expiação de toda a culpa, fabricada no imaginário dos homens, de que o sexo das mulheres é impuro e diabólico… como se um minúsculo pénis pudesse fazer sombra à virilidade masculina …
Substituíram A Deusa pelo andrógino Espírito Santo. Pai, Filho e Espírito Santo; -Já está! O Feminino desapareceu da Tríada Sagrada; - O feminino passou a intermediário do Divino na sociedade Patriarcal.
Se ela é Senhora da Vida ele é Senhor da semente. Ela o ventre ele o falo erecto. Ela o vazio, ele a matéria que a faz vaso. Parceiros na dança cósmica, recreação de universo presente, sem predomínio ou competição.
Acolher a Deusa em nós é acolher o natural. Fogo, Água, Terra e Ar unidos pela Quintessência; - O Espírito, dando relevo aos valores femininos: - O reconhecimento do valor da vida; O exercício da solidariedade; O poder da conciliação; O respeito pela Terra.
Amélia chegara à fraga. Ufa… Intacta!
Olhou o relógio e sorriu: -duas horas certas, durara a caminhada. Sentou-se, tirou o pão e o ponta e mola do Matias. Abriu-o, no soltar da mola só saltou o sorriso. Amélia sabia que era co-autora nesta história.
Olhou o monte enquanto cortava o pão, trigo colhido no monte, amanhado na eira e amassado no ventre… Esta imagem do sermão de Nossa Senhora do Rosário, era a mais bela imagem que alguma vez se materializara na sua mente. Trigo! Alimento do corpo e do Espírito. Se o Feminino era o Espírito, o Masculino era o Corpo. Feminino digerindo Masculino. Também ela que trazia dentro de si a Deusa, esse enorme X que unia a humanidade, tinha acoplado à perninha do seu Y o imaginário masculino; - A Força; A Acção; O Trabalho que lhe permitira aprender a ser Mulher Livre.
Eram 9 horas, agarrou uma maçã e deitou-se para acolher em si o Sol, Amélia não tinha qualquer dúvida, a humanidade era filha da Lua, Luz que se intui pelo matiz da Sombra. Acolher a Lua não era rejeitar o Sol… A Expressão das polaridades permitem ao Uno, manifestar-se; o mistério da identidade, a união de Adão e Eva; - Feminino e Masculino duas faces do Todo, expressão de divisão primeira.
Ao Morder a maçã foi-lhe a memória trespassada pela Confissão de Cintio Vitier…



“Bem que eu não saiba história, ou muito pouca, sou
o autor destas páginas.
Tudo me aconteceu desde o princípio.
Sou o protagonista,
a vitima, o culpado e o carrasco.
Sou o que olha e o que actua.
As idades descansaram em mim.
Os dias foram o meu alimento.
As ideias, minhas asas,
meus punhais.
Pelo vazio de minhas mãos passou
o rio das armas.
Meu canto é o silêncio.
Homem, mulher, criança, ancião,
cada gesto meu treme nas estrelas
atravessando o tempo irrepetível
Eu sou. Não busquem outro,
não torturem outro,
não amem outro.
Não tenho maneira de escapar.”



A água degelara das frestas. Ouvia-se o cantar da montanha...

A verde e a limão




Não sei a solidão
Aprendo a ser sozinha
Começo a saber-me
Sabor de limão

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lágrima de Anjo

Longe e liberto
O olhar da mulher contemplou
O mar aberto
E as suas emoções navegou

Os homens que amou
Vida que as suas entranhas gerou
Manhãs presente de risos
Noites de horas feitas longas
Na ausência
Palavras e silêncios ditos
Musicalidades
Que a vida de eternidade coroou
E o mar do seu olhar tombou
Em forma de sentimento

Um anjo que dela se acercou
Lambeu as dunas da sua prece,
Como se foram puro milagre de amor
Resgate de alegria e de dor
Daquela que se deu,
As lágrimas lhe recolheu

Sem cheiro, sabor ou cor,
Tal beleza lhes achou
Tal milagre lhes encontrou
Que as fez pender
Narciso em flor.



Para ler e ver sobre a flor clicar aqui

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Orgasmo solar




Senti as barras frias
No calor das minhas mãos
Privadas à liberdade das estrelas
Ouvi os segredos do vento
Arco de violino tangendo as cordas do tempo
Fiz-me corpo de árvore sibilante
Transgredi a tristeza do ocaso
Desenhei um arco de céu na minha cela
E chorei solidariamente os olhos cegos
Por um orgasmo do Sol

sábado, 8 de janeiro de 2011

Vinicius de Moraes

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Eidética

2 paus + 2 paus = 4 paus
2 dedos + 2 dedos = 4 dedos
2 corações + 2 corações = 4 corações
Pensar 2+2=4 independe do signo associado à ideia
Compreender uma ideia é concebe-la o mais exactamente possível e neste jogo mental a separação entre o eidético e o signo não é possível como no caso de 2+2=4.
O formalismo da compreensão de uma ideia assenta na experiência, pois é esta que dá conteúdo ao signo. O eidético e o signo só são separáveis depois de compreendida a ideia. Ficamos assim numa espécie de infinitamente limitados pela experiência definidora dos signos mentais que nos compõem a ideia.
Pode uma pessoa que nunca amou compreender o eidético em amor?
“Tramou-nos” bem o Platão com a eidética e a procura da essência do mundo das ideias.
Quando tentamos compreender uma ideia estamos na verdade a fazer uma tradução. O mundo das ideias não obedece a leis lógico-verbais, precisa de tradução para o mundo lógico-verbal para que possa ser pensada. Ao efectuarmos a tradução perdemos a essência do mundo das ideias, afasta-mo-nos da eidética.
O único jogo mental em que a ideia se pode dissociar completamente do signo é o sonho. Este obedece apenas ao movimento interno, cria as suas próprias regras imanentes de ideia, não está limitado pelas exigências vindas do exterior. No sonho a eidética é separável do signo e por isso muitas vezes ele se nos apresenta como estúpido; - Não obedece à lógica formal e dedutível que se constrói da experiência.
Deduzimos o mundo limitado à nossa experiência. A sociedade erradicou o mito e matou o sonho ao desinvestir na intuição e apoiar o modus vivendi na dedução lógica.
Estamos a ser roubados do sonho. Estamos a ficar amnésicos de mito.
Quando nos apaixonamos pensamos “amor para sempre” porque a paixão vive do imaginário mítico. Vive do ar das almas.
Diz-se que toda a pessoa é feia até que alguém se apaixona por ela.
O imaginário mítico exalta a beleza, a força e a sabedoria intrínseca a cada ser.
Uma pessoa apaixonada nunca tem dúvidas, impera a vontade da acção e os seus actos são repletos de beleza. No entanto a paixão esmorece, o amor faz-se castelo de areia varrido pelas águas, e o objecto da nossa paixão esmorecida torna-se feio... Tudo se perde porque nos perdemos do “para sempre” mítico do eidético em amor.

A Eidética de Platão é o centro (o ponto de menor turbulência do circulo). Pergunto-me
- Onde estás Arkê?
- Dentro dos meus sonhos?