terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lux

Se o amor te encontrar
Deixa-te amar
Cheira, soa e sente
A indefinível força da fragilidade
Ama como se ama o caminho do pardal
E se não souberes ser livre
Finge
Não há amor sem eternidades
E eu amei-te
Como se ama o voo
E tu fosses próprio
A liberdade

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Filhos da Lua

Iniciara-se leve a manhã e Amélia caminhava o carreiro que a levaria à fraga bem no topo da montanha. O granito paria urzes e da lenha vinha o verde que pintava o branco. Rara era a água e a que havia gelara nas frestas. Da boca de Amélia saía vapor arquejante feito pela subida e pelo sorriso.
O sol mal tinha despontado quando Amélia se levantara… um camisolão, calças, botas e na mochila o farnel para o dia; água, pão e fruta, ah! O canivete do Matias, por certo lhe perdoaria, era só um empréstimo por um dia. O ponta e mola do Matias… o frio do metal provocara-lhe sempre arrepios e quando a mola soltava a lâmina, Amélia saltava... Repetiu o gesto e sorriu no salto. Correu para a fonte e lavou a cara na gélida água que escorria. Pôs-se a caminho, eram bem duas horas, se estugasse o passo eram duas horas… Duas horas e estaria na fraga.
A fraga era uma espécie de mito. A montanha era penedia mas a fraga encimava a montanha e exercia sobre a paisagem toda a sua magia. Amélia aprendera ali que a perninha extra do Y se aprende, não se nasce mulher! Nasce-se… depois diferencia-se. Ela sabia que a perninha extra de um Y trazia inclusa romã e degustar romã era paciente trabalho de separação de partes “asignáveis ”, aturado trabalho de libertação de dualidades culturalmente imposta por conceitos, na maior parte das vezes por preconceitos.
Amélia não podia imaginar a montanha, excisada da fraga. A montanha sem fraga perderia o poder de excitação do imaginário. Porque era disso que se tratava, do imaginário das rosas que o tempo quis excisar, física ou culturalmente; - É verdade: o género e a cultura excisaram o feminino



Ah Senhora da Lua!
Grande Espírito se revela
Usando o vazio de teu vaso
Poder de sangramento
Que não mata e vivifica
Acervo de segredos
Semente de trigo plantada
Espiga madura Senhora da vida
Estio de toda a abundância
Deusa de 10 lunações
Unificando círculo em seu ventre
Perpétuo renascimento
Esperança de Sabedoria
Guardando Sombras
Conduzindo almas…



Usou a sociedade Judaico/Cristã, como ponta e mola para excisar o feminino, o Rosarium: - expiação de toda a culpa, fabricada no imaginário dos homens, de que o sexo das mulheres é impuro e diabólico… como se um minúsculo pénis pudesse fazer sombra à virilidade masculina …
Substituíram A Deusa pelo andrógino Espírito Santo. Pai, Filho e Espírito Santo; -Já está! O Feminino desapareceu da Tríada Sagrada; - O feminino passou a intermediário do Divino na sociedade Patriarcal.
Se ela é Senhora da Vida ele é Senhor da semente. Ela o ventre ele o falo erecto. Ela o vazio, ele a matéria que a faz vaso. Parceiros na dança cósmica, recreação de universo presente, sem predomínio ou competição.
Acolher a Deusa em nós é acolher o natural. Fogo, Água, Terra e Ar unidos pela Quintessência; - O Espírito, dando relevo aos valores femininos: - O reconhecimento do valor da vida; O exercício da solidariedade; O poder da conciliação; O respeito pela Terra.
Amélia chegara à fraga. Ufa… Intacta!
Olhou o relógio e sorriu: -duas horas certas, durara a caminhada. Sentou-se, tirou o pão e o ponta e mola do Matias. Abriu-o, no soltar da mola só saltou o sorriso. Amélia sabia que era co-autora nesta história.
Olhou o monte enquanto cortava o pão, trigo colhido no monte, amanhado na eira e amassado no ventre… Esta imagem do sermão de Nossa Senhora do Rosário, era a mais bela imagem que alguma vez se materializara na sua mente. Trigo! Alimento do corpo e do Espírito. Se o Feminino era o Espírito, o Masculino era o Corpo. Feminino digerindo Masculino. Também ela que trazia dentro de si a Deusa, esse enorme X que unia a humanidade, tinha acoplado à perninha do seu Y o imaginário masculino; - A Força; A Acção; O Trabalho que lhe permitira aprender a ser Mulher Livre.
Eram 9 horas, agarrou uma maçã e deitou-se para acolher em si o Sol, Amélia não tinha qualquer dúvida, a humanidade era filha da Lua, Luz que se intui pelo matiz da Sombra. Acolher a Lua não era rejeitar o Sol… A Expressão das polaridades permitem ao Uno, manifestar-se; o mistério da identidade, a união de Adão e Eva; - Feminino e Masculino duas faces do Todo, expressão de divisão primeira.
Ao Morder a maçã foi-lhe a memória trespassada pela Confissão de Cintio Vitier…



“Bem que eu não saiba história, ou muito pouca, sou
o autor destas páginas.
Tudo me aconteceu desde o princípio.
Sou o protagonista,
a vitima, o culpado e o carrasco.
Sou o que olha e o que actua.
As idades descansaram em mim.
Os dias foram o meu alimento.
As ideias, minhas asas,
meus punhais.
Pelo vazio de minhas mãos passou
o rio das armas.
Meu canto é o silêncio.
Homem, mulher, criança, ancião,
cada gesto meu treme nas estrelas
atravessando o tempo irrepetível
Eu sou. Não busquem outro,
não torturem outro,
não amem outro.
Não tenho maneira de escapar.”



A água degelara das frestas. Ouvia-se o cantar da montanha...

A verde e a limão




Não sei a solidão
Aprendo a ser sozinha
Começo a saber-me
Sabor de limão

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lágrima de Anjo

Longe e liberto
O olhar da mulher contemplou
O mar aberto
E as suas emoções navegou

Os homens que amou
Vida que as suas entranhas gerou
Manhãs presente de risos
Noites de horas feitas longas
Na ausência
Palavras e silêncios ditos
Musicalidades
Que a vida de eternidade coroou
E o mar do seu olhar tombou
Em forma de sentimento

Um anjo que dela se acercou
Lambeu as dunas da sua prece,
Como se foram puro milagre de amor
Resgate de alegria e de dor
Daquela que se deu,
As lágrimas lhe recolheu

Sem cheiro, sabor ou cor,
Tal beleza lhes achou
Tal milagre lhes encontrou
Que as fez pender
Narciso em flor.



Para ler e ver sobre a flor clicar aqui

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Orgasmo solar




Senti as barras frias
No calor das minhas mãos
Privadas à liberdade das estrelas
Ouvi os segredos do vento
Arco de violino tangendo as cordas do tempo
Fiz-me corpo de árvore sibilante
Transgredi a tristeza do ocaso
Desenhei um arco de céu na minha cela
E chorei solidariamente os olhos cegos
Por um orgasmo do Sol

sábado, 8 de janeiro de 2011

Vinicius de Moraes

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Eidética

2 paus + 2 paus = 4 paus
2 dedos + 2 dedos = 4 dedos
2 corações + 2 corações = 4 corações
Pensar 2+2=4 independe do signo associado à ideia
Compreender uma ideia é concebe-la o mais exactamente possível e neste jogo mental a separação entre o eidético e o signo não é possível como no caso de 2+2=4.
O formalismo da compreensão de uma ideia assenta na experiência, pois é esta que dá conteúdo ao signo. O eidético e o signo só são separáveis depois de compreendida a ideia. Ficamos assim numa espécie de infinitamente limitados pela experiência definidora dos signos mentais que nos compõem a ideia.
Pode uma pessoa que nunca amou compreender o eidético em amor?
“Tramou-nos” bem o Platão com a eidética e a procura da essência do mundo das ideias.
Quando tentamos compreender uma ideia estamos na verdade a fazer uma tradução. O mundo das ideias não obedece a leis lógico-verbais, precisa de tradução para o mundo lógico-verbal para que possa ser pensada. Ao efectuarmos a tradução perdemos a essência do mundo das ideias, afasta-mo-nos da eidética.
O único jogo mental em que a ideia se pode dissociar completamente do signo é o sonho. Este obedece apenas ao movimento interno, cria as suas próprias regras imanentes de ideia, não está limitado pelas exigências vindas do exterior. No sonho a eidética é separável do signo e por isso muitas vezes ele se nos apresenta como estúpido; - Não obedece à lógica formal e dedutível que se constrói da experiência.
Deduzimos o mundo limitado à nossa experiência. A sociedade erradicou o mito e matou o sonho ao desinvestir na intuição e apoiar o modus vivendi na dedução lógica.
Estamos a ser roubados do sonho. Estamos a ficar amnésicos de mito.
Quando nos apaixonamos pensamos “amor para sempre” porque a paixão vive do imaginário mítico. Vive do ar das almas.
Diz-se que toda a pessoa é feia até que alguém se apaixona por ela.
O imaginário mítico exalta a beleza, a força e a sabedoria intrínseca a cada ser.
Uma pessoa apaixonada nunca tem dúvidas, impera a vontade da acção e os seus actos são repletos de beleza. No entanto a paixão esmorece, o amor faz-se castelo de areia varrido pelas águas, e o objecto da nossa paixão esmorecida torna-se feio... Tudo se perde porque nos perdemos do “para sempre” mítico do eidético em amor.

A Eidética de Platão é o centro (o ponto de menor turbulência do circulo). Pergunto-me
- Onde estás Arkê?
- Dentro dos meus sonhos?