Amélia
aconchegava às mãos o calor do chá de jasmim. A esplanada fazia-a mergulhar no
Tejo que transforma e renova. O Sol inclinava-se para o ocaso, a Lua erguia o
seu primeiro brilho. Nesse instante suspenso do lusco-fusco, sentia o repouso
que nasce entre o ímpeto da luz e o receio suave da sombra que se inicia a
instalar neste solstício.
Se tivesse de escolher uma palavra para definir o mundo que via correr inexorável, como água do Tejo entre os dedos, seria: liminaridade.
Sentia que a humanidade vivia essa condição — a ambiguidade e a desorientação próprias de um rito de passagem. A ordem mundial erguida no pós‑Guerra Fria desmoronava-se, mas ainda não surgira uma nova identidade coletiva. Estávamos entre o que fomos e o que poderemos vir a ser.
Ao longo da
história, cada emergência sanitária trouxe consigo transformação e a
transgressão silenciosa das regras que pareciam imutáveis. A primeira grande
vaga da Peste Negra (1347–1351) ceifou entre 30 e 50% da população europeia e
provocou um choque civilizacional sem precedentes. Seguiram-se recaídas, como a
peste dos meninos (1361–1363), e a confirmação de que o mundo medieval tinha
mudado para sempre.
A crise
demográfica levou décadas a estabilizar e desencadeou transformações profundas:
escassez de mão de obra, subida de salários, enfraquecimento da autoridade
feudal e perda de prestígio da Igreja. A peste acelerou a transição para formas
de governo mais modernas, mas foi preciso quase meio século para que, em
Florença, surgisse o humanismo. A tradução de textos gregos e árabes e a crise
espiritual abriram caminho a Brunelleschi, Donatello e Masaccio, preparando o
Renascimento. Em 1455[1],
com a imprensa de Gutenberg , iniciou-se a verdadeira democratização do
conhecimento. A peste, ao redistribuir riqueza, poder e consciência, criou as
condições para o florescimento de um novo homem — o homem do Renascimento[2]
— e a humanidade demorou mais de um século a atravessar esse limiar.
Se Amélia
tivesse de escolher uma segunda palavra, seria: velocidade.
O tempo
necessário para reencontrar uma nova ordem identitária após uma crise sanitária
tem vindo a encurtar. A capacidade humana de reorganização acelerou com a
ciência e a tecnologia.
Depois da
peste medieval, outras emergências sanitárias abriram novos limiares. A
Pandemia Russa de 1889–1894, a primeira da era industrial, ceifou mais de um
milhão de vidas num mundo interligado por caminhos de ferro e telégrafos. A
doença viajava à velocidade das máquinas, e a resposta veio com ciência,
estatística e higiene pública.
Ainda assim, a
liminaridade foi longa. Em 1891–1892, a Rússia enfrentou uma das maiores fomes
do século XIX, agravada por tifo e cólera. A confiança no czarismo sofreu um
golpe profundo. Entre 1901 e 1904, greves, repressão e atentados políticos
revelavam a tensão crescente.
Em 1904, a Rússia entra em guerra com o Japão. É atribuída ao ministro Vyacheslav Plehve[3] a frase que sintetiza a lógica do regime: “Precisamos de uma pequena guerra vitoriosa para evitar a revolução.” Sempre que um regime se encontra fragilizado, surgem líderes que recorrem a confrontos externos — reais ou simbólicos — para consolidar apoio interno[4].
A derrota na guerra russo‑japonesa
acelerou a crise interna que culminou em 1917: greves, motins e protestos
levaram à abdicação de Nicolau II; o governo provisório caiu em outubro e
iniciou-se o regime soviético. O tempo de liminaridade encurtara. Em três
décadas, emergiu o homem moderno — alfabetizado, vacinado, industrial e
acelerado.
Hoje Mark
Galeotti[5]
descreve o sistema russo como uma cleptocracia personalizada: quando o regime
está fragilizado, recorre ao confronto externo para restaurar coesão. Uma
Rússia que se percebe cercada, que interpreta a NATO como ameaça e, enfrenta
sanções desde 2014, avança numa lógica de fuga para a frente: não apenas para
conquistar, mas para recuperar estatuto. O Globalization and World Cities
Research Network 2024 (GaWC)[6]
mostra essa fragilidade, a Rússia tem apenas uma cidade Alfa, contra dezassete
da Europa, nove dos EUA e cinco da China — sinal da sua fraca integração
económica global.
Num momento em
que a guerra com a Ucrânia — já mais longa do que a Segunda Guerra Mundial —
entra numa fase de desgaste profundo, torna-se inevitável perguntar se o regime
poderá regenerar-se. Iniciada num contexto pós‑pandémico que reforçou o peso
dos siloviki[7],
a guerra fechou o espaço para qualquer reforma, desviando a economia para o
esforço militar e tornando qualquer concessão um sinal de fraqueza.
A Rússia pode
deixar de ser uma cleptocracia personalista? A resposta depende menos da guerra
e mais da estrutura interna do poder: sistemas baseados em lealdades pessoais,
captura económica e controlo securitário raramente se transformam por dentro. A
história russa mostra que as mudanças profundas resultam de ruturas — 1917[8],
1991[9]
— e não de reformas graduais. Ainda assim, a pressão já prolongada pode abrir
fissuras que obriguem o sistema a adaptar-se por necessidade.
No pós‑pandemia,
também os Estados Unidos enfrentaram fragilidades inéditas: polarização
interna, erosão da confiança institucional, retirada caótica do Afeganistão e
perceção de retração estratégica. A pandemia acelerou a ascensão da China,
reforçou a assertividade[10]
russa e ampliou a influência iraniana no Médio Oriente e na América Latina. A
escalada com o Irão desde a morte de Qasem Soleimani[11],
aos ataques a petroleiros no Golfo[12]
e ao avanço do programa nuclear, tornou-se sinal de que Washington precisava de
reafirmar capacidade de dissuasão num sistema em transição. A Venezuela, por
sua vez, tornou-se palco central desta disputa, a crise energética pós‑pandemia,
a guerra na Ucrânia e a recusa da OPEP em aumentar a produção levaram os EUA a
recuperar controlo sobre Caracas, num momento em que a venezuela se tornara
ponto de influência para China, Rússia e Irão.
Assim, a
política externa americana — da contenção do Irão, de apoio a Israel contra o Hamas
e o Hezbollah, e à intervenção na Venezuela — surge como instrumento de
liderança num mundo em reajustamento, onde a competição por energia e
influência se intensificou após o choque pandémico.
Amélia não
tinha dúvidas sobre a liminaridade dos tempos que vivíamos, ambiguidade e a
desorientação próprias de um rito de passagem ampliadas pela polarização
política, social e económica que se tornava cada vez mais global.
Mas, tal como
cada crise sanitária reconfigura a ordem do mundo, também transforma a
interioridade humana. A Peste Negra gerou o homem do Renascimento; a Pandemia
Russa, o homem higiénico e moderno. Mas nenhuma emergência sanitária tocou tão
profundamente o corpo íntimo, o desejo e a identidade como a SIDA — que
inaugurou o homem biopolítico, vigiado, regulado, isolado socialmente, dividido
entre o medo e a liberdade.
É sobre esse
legado que a Covid‑19 caiu, abrindo um novo limiar geopolítico e igualmente íntimo.
Amélia deixara‑se
engolir, durante a crise sanitária covid-19, por esse rio turbulento que é o
medo — um medo antigo, visceral, que atravessa todas as crises e devolve o ser
humano à sua vulnerabilidade mais profunda. O frio da noite desceu sobre o seu
coração, e Amélia aconchegou‑se à memória do que foi para procurar quem é o
Homem Liminal pós‑Covid‑19,
preso no seu próprio limiar, no “não‑ser”, na “não‑identidade”.
Esse vazio
identitário traduzia‑se no quotidiano. Vivia entre mundos, entre o corpo e a
rede, entre humano e máquina — vivia com medo do contágio, com medo da
proximidade, com medo da perda de controlo, com medo da irrelevância, com medo
da substituição, com medo da morte e, o
algoritmo, ao amplificar conteúdos que tocam nesses medos, reforça o estado de liminar.
É neste
território de suspensão que se desenha a figura do Homem Liminal. Vive simultaneamente
em três planos: o corpo biológico, a rede
digital e a inteligência artificial como expansão cognitiva. Ele
não nasce com a Covid‑19, mas a pandemia acelera a sua emergência. Antes da
pandemia, já éramos parcialmente dependentes de smartphones, redes sociais e
algoritmos, mas existia ainda uma separação clara entre a vida digital e a vida
real. Depois da pandemia, esse limite esbate‑se, o digital torna‑se ambiente
vital de sobrevivência, porque o corpo passa a ser risco tal como na pandemia
SIDA. A rede deixa de ser ferramenta para se tornar
espaço de trabalho,
de afeto, de conflito, de identidade, de pertença. Desenhamo‑nos
no físico e no digital, e a inteligência artificial torna‑se apoio cognitivo.
Entramos pelo
medo para sairmos ampliados do outro lado: deixamos de pensar ou decidir
sozinhos para co‑pensar e co-dicidir.
Esta mutação
interior tem raízes tecnológicas muito concretas. Entre 2020 e 2022 assistimos
à explosão dos modelos de linguagem com arquitetura Transformer, a
capacidade da IA de olhar para todas as palavras de uma frase ao mesmo tempo e
perceber quais importam mais
para compreender o sentido. Com esta nova arquitetura de modelo, a IA passou a
processar tudo em paralelo, porque calcula relações internas
entre todas as palavras, e não uma sequência linear.
Assim, tornou‑se capaz de “entender” mapeando relações de sentido. Tornou‑se capaz de “co‑pensar” com
o utilizador.
Entre 2022 e
2023 são desenvolvidos modelos multimodais (texto, imagem, áudio, vídeo) que
tornam a IA numa ferramenta criativa e profissional, intensificando‑se debates
éticos e regulatórios da IA.
Estas
transformações tecnológicas repercutem‑se diretamente no tecido social. Do
outro lado da pandemia, encontramos um Estado mais interventivo; a vigilância
pessoal normalizada; a polarização intensificada; a desconfiança nas
instituições; o crescimento da extrema‑direita; e uma humanidade assoberbada
por informação instável aumentada por uma IA que cria a ilusão de que pode
pensar o sentido e o propósito: - A ilusão de que a IA pode ajudar-nos a resolver a ambiguidade da
vivência aleatória de acontecimentos e experiências.
Amélia dividida-se entre o desejo
de liberdade e a necessidade de segurança, tentando
controlar o incontrolável: - a fragmentação do conhecimento e dos sentimentos que a tornavam muito mais vulnerável, ao contrário da IA que
integra a fragmentação da informação.
Amélia não
escapa a este movimento de inteligência aumentada. A vulnerabilidade é o maior
medo de Amélia e tinha consciência que este medo estava a ser alimentado pelo
algoritmo. A vulnerabilidade e o medo alimentam‑se mutuamente. Sempre tivera
medo da morte; de perder o controlo; da substituição. A sua vulnerabilidade
alimenta‑se destes três medos e o que nela se manifesta é reflexo de um padrão
coletivo.
Cada vez que uma sociedade entra em
crise sanitária, económica ou tecnológica, o medo e a vulnerabilidade explodem,
tornando‑se matéria política, cultural e simbólica, tornando o medo viral — e
porque é viral, o algoritmo alimenta‑o para reter a nossa atenção.
Chegou a
Amélia o som de Hey Now, de London Grammar. Levantou‑se
devagar, pagou o chá, e naquele instante percebeu que talvez fosse tempo de
abandonar o Homem Liminal.
Precisava de
se encontrar com a sua humanidade transliminar, precisa de ser um
agente de transformação, não um ser
dividido. Para que a sua humanidade transliminar possa emergir,
é necessário que deixe
de reagir ao algoritmo, que escolha em consciência o que
consome, crie mais do que consome e use a tecnologia como ferramenta, nunca como
destino.
Amélia
precisava de recuperar o seu corpo e a sua mente enquanto lugar de presença e o
silêncio enquanto momento de consciência e decisão, para poder viver Liberdade.
Sobre o micro ela podia agir diretamente e ao fazê-lo podia mover o macro.
Se Amélia
tivesse que escolher uma terceira palavra seria Hibrido. A sua presença
contribuia para a construção da humanidade Híbrida, aquela que tem corpo, rede
e inteligência aumentada pela IA, mas que não abdica da sua vulnerabilidade, da
sua interioridade, da sua capacidade crítica e da sua capacidade de decidir.
A humanidade Transliminar precisa de reconhecer
a vulnerabilidade, integrar a vulnerabilidade e transformar a vulnerabilidade
em Lucidez. A humanidade Híbrida não é
uma fortaleza inatacável mas, é Ser e é-o de forma Inteira.
Num mundo que
vende performance, perfeição, produtividade, invencibilidade e imortalidade
digital, a sua humanidade transliminar afirma: — Sou vulnerável e faço disso a
minha força; — Troco a atenção digital pela consciência.
Num mundo em
que a atenção se tornou dispersa, reativa e manipulável, escolher o que se vê,
o que se sente, o que se pensa e o que se cria é revolucionário e inaugura uma
consciência focada, criadora e Livre.
Amélia podia
emergir, mesmo dentro da economia digital, escolhendo consciência em vez de
atenção, interioridade em vez de performance, vulnerabilidade em vez de medo.
Não havia que temer as crises sanitárias, a tecnologia ou a ciência. Na sua
vulnerabilidade, Amélia encontraria sempre forma de transcender.
O telemóvel vibrou,
notificações do Instagram. Amélia sorriu,
desligou as notificações e viajou com London
Grammar para o zero da sua nova humanidade sabendo que a Humanidade encontra
sempre formas de fazer permanecer a Luz.
A fim que permaneça a Luz na travessia silenciosa que transgride as regras que nos querem redesenhar.
[1] O primeiro livro impresso foi a biblia que ficou concluído em 1455
[2] O
primeiro ato reconhecido do Renascimento foi a retomada das formas e valores da
Antiguidade Clássica na arte e na literatura italianas no século XIV,
especialmente em Florença, marcando a transição da Idade Média para o
renascimento mas, com impacto efetivo já no século XV
[3] Não
existe prova documental direta. A ideia, porém, é confirmada por testemunhos
contemporâneos, como os de Sergei Witte, e amplamente referida por
historiadores como Orlando Figes e Richard Pipes.
[4] Levy mostra, no capítulo State-centered theories of
war” do Handbook of War Studies, editado por Manus I. Midlarsky (1989)
que: a ideia é antiga; é recorrente; é estudada empiricamente e; tem validade
explicativa, embora não absoluta
[5] Mark Galeotti é um dos
maiores especialistas mundiais em serviços de segurança russos, crime
organizado, elites pós‑soviéticas e estratégia híbrida, escreveu em 2019 We
Need to Talk About Putin
[6] Globalization
and World Cities Research Network, rede de pesquisa britânica criada em 1998
no Departamento de Geografia da Universidade de Loughborough, no Reino Unido,
por Peter J. Taylor, junto com Jon Beaverstock e Richard G. Smith É um “think tank” (laboratório
de ideias) que estuda as relações entre cidades no contexto
da globalização, analisando como se conectam, competem e cooperam em redes
urbanas globais.
[7] A
palavra vem do russo сила (sila), que significa “força” ou “poder”. O
plural é siloviki (силовики), usado tanto para
indivíduos quanto para o grupo como um todo. O
termo surgiu nos anos 1990, a partir da expressão
“instituições
de força” (силовые структуры), que reunia
militares, polícia, serviços de inteligência e outras agências de segurança.
Constituem o quadro do aparelho de segurança russo antigos ou atuais — que
ocupam posições de poder no Estado
[8] Revolução
Bolchevique e criação da República Socialista Federativa Soviética da Rússia
(RSFSR)
[9] Dissolução da
URSS constituída em 1922 e composta por Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e
Transcaucásia (Geórgia, Arménia e Azerbaijão)
[10] Num
mundo vulnerável, com o Ocidente em retração, a Rússia, internamente
fragilizada, viu no pós‑Covid uma janela de oportunidade para projetar força e
firmeza para restaurar controlo e redefinir o equilíbrio geopolítico.
[11] Comandante
da Força Quds (unidade de operações externas da Guarda Revolucionária Iraniana) morto num ataque com drone durante uma deslocação interna perto do
aeroporto internacional de Bagdade.
[12] Entre 2019 e 2021, vários petroleiros foram atacados
no Golfo de Omã, Estreito de Ormuz e costa dos Emirados Árabes Unidos,
atribuídos ao
Irão mais especificamente aos Guardas Revolucionários (IRGC).
