terça-feira, 14 de julho de 2026

A fim que permaneça a Luz

 

Amélia aconchegava às mãos o calor do chá de jasmim. A esplanada fazia-a mergulhar no Tejo que transforma e renova. O Sol inclinava-se para o ocaso, a Lua erguia o seu primeiro brilho. Nesse instante suspenso do lusco-fusco, sentia o repouso que nasce entre o ímpeto da luz e o receio suave da sombra que se inicia a instalar neste solstício.

Se tivesse de escolher uma palavra para definir o mundo que via correr inexorável, como água do Tejo entre os dedos, seria: liminaridade.

Sentia que a humanidade vivia essa condição — a ambiguidade e a desorientação próprias de um rito de passagem. A ordem mundial erguida no pós‑Guerra Fria desmoronava-se, mas ainda não surgira uma nova identidade coletiva. Estávamos entre o que fomos e o que poderemos vir a ser.

Ao longo da história, cada emergência sanitária trouxe consigo transformação e a transgressão silenciosa das regras que pareciam imutáveis. A primeira grande vaga da Peste Negra (1347–1351) ceifou entre 30 e 50% da população europeia e provocou um choque civilizacional sem precedentes. Seguiram-se recaídas, como a peste dos meninos (1361–1363), e a confirmação de que o mundo medieval tinha mudado para sempre.

A crise demográfica levou décadas a estabilizar e desencadeou transformações profundas: escassez de mão de obra, subida de salários, enfraquecimento da autoridade feudal e perda de prestígio da Igreja. A peste acelerou a transição para formas de governo mais modernas, mas foi preciso quase meio século para que, em Florença, surgisse o humanismo. A tradução de textos gregos e árabes e a crise espiritual abriram caminho a Brunelleschi, Donatello e Masaccio, preparando o Renascimento. Em 1455[1], com a imprensa de Gutenberg , iniciou-se a verdadeira democratização do conhecimento. A peste, ao redistribuir riqueza, poder e consciência, criou as condições para o florescimento de um novo homem — o homem do Renascimento[2] — e a humanidade demorou mais de um século a atravessar esse limiar.

Se Amélia tivesse de escolher uma segunda palavra, seria: velocidade.

O tempo necessário para reencontrar uma nova ordem identitária após uma crise sanitária tem vindo a encurtar. A capacidade humana de reorganização acelerou com a ciência e a tecnologia.

Depois da peste medieval, outras emergências sanitárias abriram novos limiares. A Pandemia Russa de 1889–1894, a primeira da era industrial, ceifou mais de um milhão de vidas num mundo interligado por caminhos de ferro e telégrafos. A doença viajava à velocidade das máquinas, e a resposta veio com ciência, estatística e higiene pública.

Ainda assim, a liminaridade foi longa. Em 1891–1892, a Rússia enfrentou uma das maiores fomes do século XIX, agravada por tifo e cólera. A confiança no czarismo sofreu um golpe profundo. Entre 1901 e 1904, greves, repressão e atentados políticos revelavam a tensão crescente.

Em 1904, a Rússia entra em guerra com o Japão. É atribuída ao ministro Vyacheslav Plehve[3] a frase que sintetiza a lógica do regime: “Precisamos de uma pequena guerra vitoriosa para evitar a revolução.” Sempre que um regime se encontra fragilizado, surgem líderes que recorrem a confrontos externos — reais ou simbólicos — para consolidar apoio interno[4].

A derrota na guerra russo‑japonesa acelerou a crise interna que culminou em 1917: greves, motins e protestos levaram à abdicação de Nicolau II; o governo provisório caiu em outubro e iniciou-se o regime soviético. O tempo de liminaridade encurtara. Em três décadas, emergiu o homem moderno — alfabetizado, vacinado, industrial e acelerado.

Hoje Mark Galeotti[5] descreve o sistema russo como uma cleptocracia personalizada: quando o regime está fragilizado, recorre ao confronto externo para restaurar coesão. Uma Rússia que se percebe cercada, que interpreta a NATO como ameaça e, enfrenta sanções desde 2014, avança numa lógica de fuga para a frente: não apenas para conquistar, mas para recuperar estatuto. O Globalization and World Cities Research Network 2024 (GaWC)[6] mostra essa fragilidade, a Rússia tem apenas uma cidade Alfa, contra dezassete da Europa, nove dos EUA e cinco da China — sinal da sua fraca integração económica global.

Num momento em que a guerra com a Ucrânia — já mais longa do que a Segunda Guerra Mundial — entra numa fase de desgaste profundo, torna-se inevitável perguntar se o regime poderá regenerar-se. Iniciada num contexto pós‑pandémico que reforçou o peso dos siloviki[7], a guerra fechou o espaço para qualquer reforma, desviando a economia para o esforço militar e tornando qualquer concessão um sinal de fraqueza.

A Rússia pode deixar de ser uma cleptocracia personalista? A resposta depende menos da guerra e mais da estrutura interna do poder: sistemas baseados em lealdades pessoais, captura económica e controlo securitário raramente se transformam por dentro. A história russa mostra que as mudanças profundas resultam de ruturas — 1917[8], 1991[9] — e não de reformas graduais. Ainda assim, a pressão já prolongada pode abrir fissuras que obriguem o sistema a adaptar-se por necessidade.

No pós‑pandemia, também os Estados Unidos enfrentaram fragilidades inéditas: polarização interna, erosão da confiança institucional, retirada caótica do Afeganistão e perceção de retração estratégica. A pandemia acelerou a ascensão da China, reforçou a assertividade[10] russa e ampliou a influência iraniana no Médio Oriente e na América Latina. A escalada com o Irão desde a morte de Qasem Soleimani[11], aos ataques a petroleiros no Golfo[12] e ao avanço do programa nuclear, tornou-se sinal de que Washington precisava de reafirmar capacidade de dissuasão num sistema em transição. A Venezuela, por sua vez, tornou-se palco central desta disputa, a crise energética pós‑pandemia, a guerra na Ucrânia e a recusa da OPEP em aumentar a produção levaram os EUA a recuperar controlo sobre Caracas, num momento em que a venezuela se tornara ponto de influência para China, Rússia e Irão.

Assim, a política externa americana — da contenção do Irão, de apoio a Israel contra o Hamas e o Hezbollah, e à intervenção na Venezuela — surge como instrumento de liderança num mundo em reajustamento, onde a competição por energia e influência se intensificou após o choque pandémico.

Amélia não tinha dúvidas sobre a liminaridade dos tempos que vivíamos, ambiguidade e a desorientação próprias de um rito de passagem ampliadas pela polarização política, social e económica que se tornava cada vez mais global.

Mas, tal como cada crise sanitária reconfigura a ordem do mundo, também transforma a interioridade humana. A Peste Negra gerou o homem do Renascimento; a Pandemia Russa, o homem higiénico e moderno. Mas nenhuma emergência sanitária tocou tão profundamente o corpo íntimo, o desejo e a identidade como a SIDA — que inaugurou o homem biopolítico, vigiado, regulado, isolado socialmente, dividido entre o medo e a liberdade.

É sobre esse legado que a Covid‑19 caiu, abrindo um novo limiar geopolítico e igualmente íntimo.

Amélia deixara‑se engolir, durante a crise sanitária covid-19, por esse rio turbulento que é o medo — um medo antigo, visceral, que atravessa todas as crises e devolve o ser humano à sua vulnerabilidade mais profunda. O frio da noite desceu sobre o seu coração, e Amélia aconchegou‑se à memória do que foi para procurar quem é o Homem Liminal pós‑Covid‑19, preso no seu próprio limiar, no “não‑ser”, na não‑identidade”.

Esse vazio identitário traduzia‑se no quotidiano. Vivia entre mundos, entre o corpo e a rede, entre humano e máquina — vivia com medo do contágio, com medo da proximidade, com medo da perda de controlo, com medo da irrelevância, com medo da substituição, com medo da morte e, o algoritmo, ao amplificar conteúdos que tocam nesses medos, reforça o estado de liminar.

É neste território de suspensão que se desenha a figura do Homem Liminal. Vive simultaneamente em três planos: o corpo biológico, a rede digital e a inteligência artificial como expansão cognitiva. Ele não nasce com a Covid‑19, mas a pandemia acelera a sua emergência. Antes da pandemia, já éramos parcialmente dependentes de smartphones, redes sociais e algoritmos, mas existia ainda uma separação clara entre a vida digital e a vida real. Depois da pandemia, esse limite esbate‑se, o digital torna‑se ambiente vital de sobrevivência, porque o corpo passa a ser risco tal como na pandemia SIDA. A rede deixa de ser ferramenta para se tornar espaço de trabalho, de afeto, de conflito, de identidade, de pertença. Desenhamo‑nos no físico e no digital, e a inteligência artificial torna‑se apoio cognitivo.

Entramos pelo medo para sairmos ampliados do outro lado: deixamos de pensar ou decidir sozinhos para co‑pensar e co-dicidir.

Esta mutação interior tem raízes tecnológicas muito concretas. Entre 2020 e 2022 assistimos à explosão dos modelos de linguagem com arquitetura Transformer, a capacidade da IA de olhar para todas as palavras de uma frase ao mesmo tempo e perceber quais importam mais para compreender o sentido. Com esta nova arquitetura de modelo, a IA passou a processar tudo em paralelo, porque calcula relações internas entre todas as palavras, e não uma sequência linear. Assim, tornou‑se capaz de entendermapeando relações de sentido. Tornou‑se capaz deco‑pensar” com o utilizador.

Entre 2022 e 2023 são desenvolvidos modelos multimodais (texto, imagem, áudio, vídeo) que tornam a IA numa ferramenta criativa e profissional, intensificando‑se debates éticos e regulatórios da IA.

Estas transformações tecnológicas repercutem‑se diretamente no tecido social. Do outro lado da pandemia, encontramos um Estado mais interventivo; a vigilância pessoal normalizada; a polarização intensificada; a desconfiança nas instituições; o crescimento da extrema‑direita; e uma humanidade assoberbada por informação instável aumentada por uma IA que cria a ilusão de que pode pensar o sentido e o propósito: - A ilusão de que a IA pode ajudar-nos a resolver a ambiguidade da vivência aleatória de acontecimentos e experiências.

Amélia dividida-se entre o desejo de liberdade e a necessidade de segurança, tentando controlar o incontrolável: - a fragmentação do conhecimento e dos sentimentos que a tornavam muito mais vulnerável, ao contrário da IA que integra a fragmentação da informação.

Amélia não escapa a este movimento de inteligência aumentada. A vulnerabilidade é o maior medo de Amélia e tinha consciência que este medo estava a ser alimentado pelo algoritmo. A vulnerabilidade e o medo alimentam‑se mutuamente. Sempre tivera medo da morte; de perder o controlo; da substituição. A sua vulnerabilidade alimenta‑se destes três medos e o que nela se manifesta é reflexo de um padrão coletivo.

Cada vez que uma sociedade entra em crise sanitária, económica ou tecnológica, o medo e a vulnerabilidade explodem, tornando‑se matéria política, cultural e simbólica, tornando o medo viral — e porque é viral, o algoritmo alimenta‑o para reter a nossa atenção.

Chegou a Amélia o som de Hey Now, de London Grammar. Levantou‑se devagar, pagou o chá, e naquele instante percebeu que talvez fosse tempo de abandonar o Homem Liminal.

Precisava de se encontrar com a sua humanidade transliminar, precisa de ser um agente de transformação, não um ser dividido. Para que a sua humanidade transliminar possa emergir, é necessário que deixe de reagir ao algoritmo, que escolha em consciência o que consome, crie mais do que consome e use a tecnologia como ferramenta, nunca como destino.

Amélia precisava de recuperar o seu corpo e a sua mente enquanto lugar de presença e o silêncio enquanto momento de consciência e decisão, para poder viver Liberdade. Sobre o micro ela podia agir diretamente e ao fazê-lo podia mover o macro.

Se Amélia tivesse que escolher uma terceira palavra seria Hibrido. A sua presença contribuia para a construção da humanidade Híbrida, aquela que tem corpo, rede e inteligência aumentada pela IA, mas que não abdica da sua vulnerabilidade, da sua interioridade, da sua capacidade crítica e da sua capacidade de decidir.

A humanidade Transliminar precisa de reconhecer a vulnerabilidade, integrar a vulnerabilidade e transformar a vulnerabilidade em Lucidez. A humanidade  Híbrida não é uma fortaleza inatacável mas, é Ser e é-o de forma Inteira.

Num mundo que vende performance, perfeição, produtividade, invencibilidade e imortalidade digital, a sua humanidade transliminar afirma: Sou vulnerável e faço disso a minha força; — Troco a atenção digital pela consciência.

Num mundo em que a atenção se tornou dispersa, reativa e manipulável, escolher o que se vê, o que se sente, o que se pensa e o que se cria é revolucionário e inaugura uma consciência focada, criadora e Livre. 

Amélia podia emergir, mesmo dentro da economia digital, escolhendo consciência em vez de atenção, interioridade em vez de performance, vulnerabilidade em vez de medo. Não havia que temer as crises sanitárias, a tecnologia ou a ciência. Na sua vulnerabilidade, Amélia encontraria sempre forma de transcender.

O telemóvel vibrou, notificações do Instagram. Amélia sorriu, desligou as notificações e viajou com London Grammar para o zero da sua nova humanidade sabendo que a Humanidade encontra sempre formas de fazer permanecer a Luz.

A fim que permaneça a Luz na travessia silenciosa que transgride as regras que nos querem redesenhar.

(Música escolhida por Ana Teresa Miranda)


[1] O primeiro livro impresso foi a biblia que ficou concluído em 1455

[2] O primeiro ato reconhecido do Renascimento foi a retomada das formas e valores da Antiguidade Clássica na arte e na literatura italianas no século XIV, especialmente em Florença, marcando a transição da Idade Média para o renascimento mas, com impacto efetivo já no século XV

 

[3] Não existe prova documental direta. A ideia, porém, é confirmada por testemunhos contemporâneos, como os de Sergei Witte, e amplamente referida por historiadores como Orlando Figes e Richard Pipes.

 

[4] Levy mostra, no capítulo State-centered theories of war” do Handbook of War Studies, editado por Manus I. Midlarsky (1989) que: a ideia é antiga; é recorrente; é estudada empiricamente e; tem validade explicativa, embora não absoluta

 

[5] Mark Galeotti é um dos maiores especialistas mundiais em serviços de segurança russos, crime organizado, elites pós‑soviéticas e estratégia híbrida, escreveu em 2019 We Need to Talk About Putin

 

[6] Globalization and World Cities Research Network, rede de pesquisa britânica criada em 1998 no Departamento de Geografia da Universidade de Loughborough, no Reino Unido, por Peter J. Taylor, junto com Jon Beaverstock e Richard G. Smith É umthink tank” (laboratório de ideias) que estuda as relações entre cidades no contexto da globalização, analisando como se conectam, competem e cooperam em redes urbanas globais.

 

[7] A palavra vem do russo сила (sila), que significa “força” ou “poder”. O plural é siloviki (силовики), usado tanto para indivíduos quanto para o grupo como um todo. O termo surgiu nos anos 1990, a partir da expressão instituições de força (силовые структуры), que reunia militares, polícia, serviços de inteligência e outras agências de segurança. Constituem o quadro do aparelho de segurança russo antigos ou atuais — que ocupam posições de poder no Estado

[8] Revolução Bolchevique e criação da República Socialista Federativa Soviética da Rússia (RSFSR)

 

[9] Dissolução da URSS constituída em 1922 e composta por Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Transcaucásia (Geórgia, Arménia e Azerbaijão)

 

[10] Num mundo vulnerável, com o Ocidente em retração, a Rússia, internamente fragilizada, viu no pós‑Covid uma janela de oportunidade para projetar força e firmeza para restaurar controlo e redefinir o equilíbrio geopolítico.

 

[11] Comandante da Força Quds (unidade de operações externas da Guarda Revolucionária Iraniana) morto num ataque com drone durante uma deslocação interna perto do aeroporto internacional de Bagdade.

 

[12] Entre 2019 e 2021, vários petroleiros foram atacados no Golfo de Omã, Estreito de Ormuz e costa dos Emirados Árabes Unidos, atribuídos ao Irão mais especificamente aos Guardas Revolucionários (IRGC).


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