segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Angústia

Hoje eu podia acreditar em alguma coisa
Podia acreditar que uma ave vai voar sobre a minha janela
e levar-me no seu voo

Nem precisava de acreditar em algo tão extraordinário
Podia ser um crer de coisa banal
Como acreditar que a vizinha vai bater à minha porta
E dizer-me que se lembrou, de tanto me não ver, de
me interromper subitamente a solidão descrente
Não!
Isto seria extraordinário!
O desvelo da vizinha, por muito, não poderia chegar a tanto.
Um crer mais comum...
Assim como crer que me velam a existência
E que a solidão não é mais que o erro de percepção
Se eu pudesse crer este pouco
Talvez me deslocasse deste lugar de ser lúcida para o lugar de ser louca

No manicómio há quartos com portas e janelas com barras
Onde se sabe não há aves
Nem vizinhos
Nem nada que nos vele
Apenas solidão que corre por entre os bocados de lucidez descrente

Hoje eu queria crer que sou louca
E que posso atirar fora a lucidez deste meu cristal
Como tinta de um quadro de emoções rubras
Pintadas a pincel de angústia
Esta velha angústia transbordante
Que me seca as lágrimas
(Não ficar nem partir
Não chorar nem rir
Não desacreditar nem crer)
Amargando-me o sentir

Hoje eu queria crer que a lucidez é o voo da ave
E que abriram o manicómio à realidade:
- Nas ruas, nas bolsas; nos passos apressados para o sucesso surdo
A qualquer sensibilidade; nos bolsos dos sem-abrigo;
Nas mães sem pão nas mãos; vaga a loucura,
Tão desumana, tão escrava de afazeres injustos
de um tempo sem tempo para sonhar;
- o voo

Esse despropósito pousado sobre a minha janela

Creio agora! Creio!
Realidade perene de verdade
Amarfanhada à mão da humanidade
Rezo-lhe!
e ao rezar-lhe chamo-lhe:
- Liberdade!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Chave?

Poema visual de ParadoXos





O diálogo ocasional com o vizinho de lugar no 17 escorria-me das camadas de mortos com que visto as conversas ocasionais de autocarro.

O autocarro é um falso lugar para comunicar, expressar nele um pensamento é acabar com a sua verdade.

Em verdade não sei quantos mortos trago vestidos. Tenho chaves que abrem os seus caixões para que delatem pensamentos dos quais não é possível discordar. A poeira dos mortos cobre o vizinho que, quieto, educado, sensível, como um espectador da minha insensibilidade, me sorri o silencioso acordo à morbidez dos dias.

Liberto-me dos dias e penso; -faca - mas fecho as palavras dentro da boca; - a viagem é demasiado curta para o homicídio.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Solstício de Inverno



Noite de silêncio, Noite de Solstício

Tudo é calmo, Tudo é deslumbramento

Dorme a natureza, a floresta e o vale

Até que a primavera a volte a despertar

Espíritos em sossego crescem fortes

Espíritos em sossego crescem fortes


Noite de silêncio, Noite de Solstício

Lua de prata deslumbrante

Repousa a Terra em lençóis de neve

Os fogos de Yule honram a volta do Sol

Ouçam, a Luz Renasce!

Ouçam, a Luz renasce!


Noite silenciosa, Noite de Solstício

A quietude lavra a Luz

Giro eterno de rolamento

Traz o inverno que conforta e cura

Descansa o teu espírito na paz

Descansa o teu espírito na paz


(Livre tradução)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Construir a Felicidade

'A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade'.
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Derrida






Qual a influência social de cada vez escrevermos mais e falarmos menos?

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Fénix

Cada vez que a vida insiste em reinventar-me
Dou por mim chegada a um lugar incerto
Por construir e por decorar
O Esplendoroso vazio
Começa a erguer uma imagem
Sem nome
Imagem de coisa completamente nova
Interrogação perplexa sem evidência de pergunta

Inicio o despejo
O lastro do inabalável escorre-me da ampulheta
E perco todo o meu tempo de saber
Flutuo sobre o vazio, voo insustentada
Como se fosse espuma de uma onda desfeita
Que se ergueu acima das águas
Apenas para ser açoitada pelo vento
E é então que o Azul me pede mais

Trago, acorrentadas às mãos, apenas as minhas cores
Liberto-as e… rezo-lhes
Peço-lhes que bailem sem se fundir
Para que o milagre de uma pena colorida me aconteça
...Mas não acontece…
Tudo se funde e a escuridão da noite por estrelar
Devolve-me o lastro que me pesa o pé
Afundo-me na densa prisão de mim
Condenada ao frio e à escuridão do rancor

O desespero Incendeia a minha Fénix
Sobre o cinzeiro das penas
Facho de luz que amacia a escuridão
E me aquece o lastro
Olho o peso finalmente aberto e escolho apenas
O que me funda e me liberta
Aprendo o céu da contemplação
Forjo o esplendor e saio de mim
Respiro todas as cores da minha vida
E encho-me do arco-íris
Milagre da minha pena
Que agora brilha sobre toda a escuridão

Renasço do mesquinho mortal
Penduro todas as cores neste novo local
Regatos, alegres, volteiam o abraço sincero
A montanha inicia o seu canto
As aves voam sobre o som das águas
Brincam com a inocência do riso
Natureza inteira
Matiz que se intui de um sol
Sem paredes, nem janelas, nem cortinas
Sem hora para o levante
Nem hora para o esplendor
Sem hora para o vazio
Nem hora para a rosa
Sem hora para o silêncio
Nem hora para o ocaso
Eu sou a montanha, o regato, a ave, o riso
A rosa e o silêncio
Eu sou, sobre a prancha,
O papel, a tinta e a pena
Sou
E não tenho maneira de escapar

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ao Intendente

Aluga-se
Bem localizado
A um minuto, a pé, para a vida
Transporte público,
com todas as exéquias,
para a morte
Acesso rápido a eternidades ínfimas de amor.

Espaço amplo,
Largas janelas sobre o mar da imaginação
Cortinado, da mais fina liberdade,
sem bordados ou brocados,
Fixo, por ilusões, a bocados de interioridade
Forjados na luz da escuridão.
Equipado, para suporte da dor,
Com aquecimento a coração.

Possuo lugar vazio,
Sem qualquer propósito ou
intenção de utilização
com serventia de cozinha
(E por que não?) do saguão,
Aguardando ocupação

Se deseja (des)arrumar-se
numa vida para alugar
Contacte os sentimentos
Receba,
caro inquilino,
O melhor dos cumprimentos